Conversa com a professora Suely Aymone

ENTREVISTA

Como os leitores já sabem, a coluna Entrevista é publicada esporadicamente e contém sempre a participação de  um professor. Em 12 de julho de 2012, eu publiquei a entrevista da professora Niuza Eugênia; hoje trago a conversa com Suely Aymone, que conheci por meio  do grupo Blogs Educativos.  Eu decidi  convidá-la quando descobri  que leciona língua portuguesa em  um Curso de Formação de Professores – o antigo  Normal. Eu quis saber como é trabalhar a disciplina em um curso que prepara futuros educadores: quais são os desafios? Como discutir o tratamento da variação linguística? Como falar de tecnologias na educação com esse grupo? A entrevista ficou sensacional! Suely, agradeço  imensamente por aceitar meu  convite.

1. Qual  é  a sua  formação e  há  quanto  tempo está  no  magistério?

Minha primeira tentativa de graduação foi na área do jornalismo; naquele tempo (final dos anos setenta), a gente dizia comunicação social.

Vai que, no quarto semestre, me encontrei com uma professora (a disciplina era Português para Comunicação, se não me engano…) que revolucionou minha vida… tá bem, um pouco menos: me inspirou a trocar de curso.

Estava com dezoito anos e queria mudar o mundo (acho que ainda quero!) e a professora Luiza me devolveu a palavra!

Suas aulas eram desafiadoras, me descobri com jeito para escrever e precisava mostrar que todos podiam desenvolver esse jeito!

Então, fui pras Letras! E me apaixonei!

A minha formação, então, está assim, por enquanto…

  1. Graduação em Letras – língua portuguesa e literaturas da língua portuguesa (1984 – FAFIUR/PUCRS)
  2. Especialização em Ensino de língua portuguesa (1986 -PUCRS)
  3. Especialização em Tecnologias na educação (2010 -PUC-Rio/MEC)

Desde 1985, ando às voltas com as questões do magistério… vivi/vivo experiências transformadoras como professora de língua portuguesa e de literatura. Já atuei

  • no ensino fundamental anos finais na rede particular (de 1984 à 1991);
  • no ensino fundamental anos finais, escola inserida na FASE (de 2000 à 2004);
  • no ensino médio (de 2004 à 2009);
  • na EJA – ensino médio (2000 à 2009).

Desde 2009, estou no Curso Normal em nível médio e Aproveitamentos de Estudos com didática da linguagem,  literatura infantil, língua portuguesa.

E, em 2011, assumi, também, coordenação do laboratório de informática da escola.

Sim, sou bastante inquieta e os desafios me chamam

2. Antes de ser professora, exerceu alguma  outra  profissão?

Não!

Um fato engraçado: sou a filha mais velha e tive algumas prerrogativas em relação aos meus irmãos; por exemplo, aqueles livrinhos de bebê em que a mãe faz todos os registros – primeiras visitas, primeira papinha, primeiras palavras… uma das questões era sobre o que o papai e a mamãe gostariam que eu fosse quando crescesse. Adivinha o que os dois responderam? Professora.

Acho que desde aquele tempo, e até nas brincadeiras com as amiguinhas, eu já era professora… heeheheh

3. Em algum momento  pensou em desistir do magistério? 

Estar na escola (ou em outros lugares; na web, por exemplo!) com os alunos, com os colegas, com as pessoas, aprendendo, trocando ideias é a minha paixão.

Como a professora Maria Isabel Dalla Zen (cujo trabalho admiro muito),

“sou do time que acredita no projeto de uma escola possível e feliz,
que vai se superando num conjunto de lutas políticas maior.”

4. Qual momento, em  sua  trajetória profissional, causou-lhe grande  emoção?

Bah, com sinceridade, assim grande emoção… não saberia dizer… uma das minhas alegrias é nos (re) encontros com os alunos – tanto adolescentes quanto  adultos – ouvir, por exemplo, professora, a senhora me despertou o gosto pela leitura…

Brinco que uma das minhas missões é a formação de leitores – adoro  literatura e, por isso, eu acho, consigo encantar os alunos para a leitura, especialmente, de literatura!

5. Entre os professores,  o  uso de  tecnologias da informação aplicadas à educação ainda é controverso. Por que, então, usá-las? Ou melhor,  por que trabalhar com  essas ferramentas em  um curso de  formação de  professores?

A pergunta de partida, no TCC que apresentei na Especialização em Tecnologias na educação (2010 -PUC-Rio/MEC), era:

Como ampliar a presença online de futuros professores (alunos do Curso Normal em nível médio), usando interfaces que fomentem a construção do conhecimento de forma colaborativa, a reflexão sobre a prática, a qualificação da pesquisa, a busca pela autoria, com autonomia, criatividade e criticidade?

Considero importante que os alunos (futuros professores) construam essa presença, pois, a partir da vivência, podem surgir práticas inovadoras, nos anos iniciais do ensino fundamental, que visem ao uso da web para construção de conhecimento de forma colaborativa.

Acredito que, citando o professor Moran, “aprendemos melhor quando vivenciamos, experimentamos, sentimos” ou seja, se o futuro professor desenvolve a autoria em um blog, por exemplo, ou participa um grupo de discussão em que troca ideias com outros professores, refletindo sobre as práticas, poderá transformar essas experiências em ações com seus (futuros) alunos.

A minha intenção é compartilhar o processo de compreensão sobre as TIC com os alunos (professores em formação inicial), instigá-los a aprender e a ensinar de maneira colaborativa, em rede (presencialmente e online). Ou, pelo menos, problematizar o modelo de aula centrado no professor e que, em geral, é reproduzido quando se propõem atividades usando a internet.

6. Ao acessar o  seu  Webfólio,  vi que  há a indicação dos  blogs  criados por seus alunos. Essas páginas  foram  criadas como  resultado de seu  trabalho  com  as turmas?  Como   foi  feita a motivação  para o  uso dessa ferramenta?

Os alunos usam os blogs como forma de expressão de sentimentos, ideias… são adolescentes construindo/assumindo espaços para dizer.

Talvez, alguns tenham criado os blogs a partir do trabalho na escola…

Mas o que acho mais importante é o desenvolvimento da autoria, é a partilha!

Antes, para sermos lidos, fazíamos murais, imprimíamos jornais de turmas ou, até, livrinhos. E isso demandava verba, que, na maioria das vezes, a rede pública não previa. Então, havia a necessidade de patrocínio, sempre difícil!

Hoje em dia, as interfaces colaborativas da web democratizam a escrita e a leitura!

Isso me entusiasma…

7. Ao buscar  informações a seu  respeito,  encontrei  uma referência ao Normal  tá na rede, hospedado  na plataforma  Ning que,  em  2010, encerrou  todas as contas gratuitas. Como  era feito  o  trabalho  na rede?  O  que aconteceu  com seu  trabalho  junto às  normalistas quando  a rede foi  fechada?

 

Comecei a usar a internet apenas em 2008. Minhas investidas eram/são muito intuitivas, aprendo de tutorial em tutorial… e, é claro, especialmente, com ajuda dos colegas do grupo Blogs Educativos.

O Normal tá na rede surgiu com os  alunos que cursavam o terceiro ano em 2009, nosso objetivo:

… Nas salas de aula, tecemos redes de aprendizagem – construímos saberes,
dividimos angústias, aflições, nos encantamos com nossas produções e com as
descobertas, sonhamos com uma escola pública de qualidade, lutamos para que isso se concretize…

Que tal sermos inovadores, estendendo nossa rede na web?

Aceitas o desafio de aprender colaborativamente?

 

Por que essa plataforma? Pela facilidade de acesso usando qualquer email; por ser de fácil manuseio, já que os recursos  disponíveis – criação de perfil, inserção de vídeo e de foto, bate-papo, troca de mensagens – eram familiares aos alunos; pela  possibilidade de diálogo! Além disso, via  algumas vantagens, por exemplo, em relação aos blogs criados em outros espaços: os blogs pessoais estavam reunidos no mesmo lugar, o que facilitava a interação!

Inicialmente, a comunidade era formada pelos alunos do Curso Normal da escola…

Mas, depois, aos poucos, as pessoas que se interessavam por literatura, língua portuguesa, educação infantil, anos iniciais do ensino fundamental, tecnologias na educação… foram chegando…

Nossa interação foi muito bacana, até a professora Lilian Starobinas mencionou O Normal tá na rede! num artigo na revista Carta na Escola.

Quando soube do encerramento das contas gratuitas, o grupo decidiu descontinuar o trabalho… foi um aprendizado muito interessante, era a primeira vez que enfrentava as oscilações decorrentes do uso de interfaces oferecidas por sistemas proprietários.

8. Seu  trabalho no Curso Normal  é   Didática da Linguagem e Literatura Infantil. Como  são  abordados tais temas?

Então, vamos lá: algumas concepções que permeiam o trabalho e refletem as escolhas: procuramos entender a língua – segundo  Vigotski, Bakthin, Geraldi – como um processo de interação entre sujeitos que desempenham papéis sociais, ideologicamente situados num momento histórico, portanto, um sistema aberto, vivo, dinâmico.

Há que considerar, também, que, em muitos casos, a escola é o único espaço/lugar em que as crianças terão contato com os textos literários. Portanto, deve assumir a responsabilidade de oferecer-lhes experiências significativas de leitura  que privilegiem o modo estético de representar o mundo e de trabalhar a linguagem.

Essas ideias pressupõem o investimento na construção da autonomia dos alunos (futuros professores), problematizando a condição de simples repetidores de conteúdo e passando à condição de leitores, autores, pesquisadores – críticos e reflexivos -, não só sobre as questões de usos da língua, de leitura e de literatura infantil, mas sobre o cotidiano.

As aulas dessas disciplinas são desenvolvidas de forma integrada (não dá para separar, não é mesmo?!). Lemos muitas obras, debatemos, realizamos hora do conto, criamos recursos para ajudar na contação… Lemos outros gêneros textuais – orais ou escritos – fazendo a reflexão sobre as temáticas, as ideologias, a estrutura linguística… e muito referencial teórico – que é o nosso café no bule.

Precisamos de café no bule para nos posicionar e fazer as escolhas!

O curso normal do Elisa orienta que os projetos tenham como atividade desencadeadora um texto literário. A partir desse texto, fios serão tecidos entre as disciplinas.

No Ufa! Bloguei! compartilho os planos de trabalho (sempre em re/construção).

9. Há  cerca de um ano, falou-se  muito  na mídia sobre o modo  como o  tratamento  da variação  linguística foi  abordado  em  um livro didático que seria  usado na Educação de Jovens e Adultos (EJA).  Os autores do  livro  Viver e aprender foram massacrados pela  imprensa e o  Ministério da Educação,  acusado de  distribuir livros  com “erro de  português”. Como  lidar com  questões  tão  polêmicas na sala  de aula onde  são  formados futuros educadores?

A função de professor de língua e literatura implica muita responsabilidade, pois a forma como  o trabalho é encaminhado pode contribuir, por exemplo, para que o preconceito linguístico se fortaleça e, daí, a exclusão; ou para a “apropriação” da (s) língua (s).

Entendo que a aprendizagem de língua dever servir para libertar (e não para aprisionar!). Deve focar na formação de leitores e de produtores de textos (e não em “especialistas” em gramática normativa!).

Por isso, a  importância de expor os alunos a diferentes textos e contextos de uso da linguagem, a fim de torná-los  “poliglotas” na própria língua, capazes de usá-la nas diversas situações, respeitando e valorizando as variações, e fazendo as reflexões necessárias sobre a modalidade padrão (ou culta).

Suely Aymone

Deixo aqui os links de algumas produções de que tenho participado:

http://ufabloguei.blogspot.com.br/ – blog pessoal em que publico desde novembro de 2008

http://espichandoaconversa.blogspot.com.br/ – blog em que os alunos do curso normal publicam algumas produções (desde 2009)

http://elisaemrede.blogspot.com.br/ – blog da escola (desde 2011)

http://elisaculturajovem.blogspot.com.br/ – Cultura Jovem – o jornal do Elisa (projeto criado, em 2012, pelo professor de História e que envolve alunos dos terceiros anos do ensino médio e do curso normal): esse projeto está em conexão com os alunos da Escola Aluízio P. Ferreira, em Rolim de Moura – RO, coordenados pela professora Juliana Seabra Laudares. Já realizamos uma conversa, usando o MSN e webcam e estamos juntos num grupo no Facebook.

Para ler todas as entrevistas publicadas no  Conversa de Português, clique AQUI.

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Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

Comentários

    1. Fátima!

      A Andréia é muuito danada! Me cutucou e eu fui!
      Com questões, assim, instigantes fica bem fácil destravar a língua, né?!
      Obrigada pelo carinho!
      Beijos!

  1. Não sei definir se afinidade, afeição, admiração ou a mais pura atração intelectual. Sei que idealizamos além da realidade, por isso esqueço até que é de carne e osso… acompanho Suely há muito tempo, é a supra-sumo dos meus relacionamentos virtuais.

    1. Fernandão, meu querido amigo!

      A gente se segue faz tempo, não é mesmo???
      Acho que, além do que mencionaste, é um caso de parceria da boa!
      Aliás, fazemos parte de um baita grupo – Blogs Educativos – que nos “joga” pra cima, pra produzirmos juntos, com entusiasmo, com alegria!!! Sem medo!
      Obrigada pela generosidade!
      Beijos!

  2. Adorei conhecer mais um pouquinho da profe Suely! Que por acaso é uma professora maravilhosa, além de tudo isso que ela falou, posso colocar mais algumas características dela em aula:
    – Está sempre motivando os alunos, não somente nos trabalhos de suas disciplinas.
    – Está sempre tentando resolver os conflitos dos alunos, sendo amiga e ajudando a criar um bom espaço para o aprendizado.
    – Nunca para quieta (isso é o que mais adoro)! Está sempre motivada a inovar, a realizar projetos novos, divertidos e com grande aprendizado.

    Suely é um grande exemplo a ser seguido, como professora, educadora e pessoa. Espero nas minhas futuras turminhas sempre levar um pouquinho de ti comigo! (:

    1. Laura!

      O que dizer depois de tudo que falaste?
      Já sei: acho que posso morrer em paz – missão cumprida! 😉
      Só que daqui a uns 50 anos, no mínimo…
      Antes, quero ver meus netos como teus alunos… o que achas???

      Esse é um bom projeto, né?
      Ah, detalhe: o Tomás, como filho de velhos, também terá filho depois dos 35… ehehehheeh
      Falando sério: obrigada, esse é o melhor reconhecimento que posso desejar para meu esforço e minha dedicação…
      É muito bom conviver contigo nesses três anos… a gente tá crescendo juntas… e aí entra toda a 31 B – entre tapas beijos!
      🙂
      Beijos e mais beijos!
      Valeu, mesmo!