Língua Portuguesa e mudanças ortográficas

Nos últimos meses, nós, professores de Língua Portuguesa, temos sido bombardeados pela seguinte pergunta: “É verdade que a língua portuguesa vai mudar?”. Sim, mudarão algumas regras de ortografia, mas esta não é a primeira vez que isto acontece em nosso idioma e não é algo que ocorra de um dia para o outro.


A língua portuguesa é a terceira mais falada no mundo, perdendo apenas para o inglês e o espanhol; é falada em Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Timor Leste, Macau, Goa, Damão, Diu, São Tomé e Príncipe, e Guiné-Bissau, como língua oficial ou segunda língua. Sendo assim, as alterações ortográficas não podem ocorrer à revelia da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que é composta por oito destes países.

O acordo ortográfico que originou as novas mudanças existe desde 1990, mas ainda não fora implantado por depender da adesão de todos os países que integram a COLP. Até 2004, apenas Portugal, Brasil e Cabo Verde haviam começado os estudos para adaptar suas legislações às propostas do acordo. Na tentativa de acelerar o processo de implantação do acordo ortográfico da língua portuguesa, os chefes de Estado da COLP decidiram que bastaria a assinatura de três países para que o documento vigorasse; o representante do Brasil na COLP assinou o acordo em 22 de outubro daquele ano.
A implantação de um novo vocabulário ortográfico de língua portuguesa permitirá que Brasil e Portugal tenham uma única ortografia oficial, em vez de duas como ocorre hoje. No Brasil, escrevemos “úmido”, enquanto em Portugal, “húmido”; nós escrevemos “ação” e eles , “acção”. Com o acordo vigorando, uma infinidade de divergências desaparecerá.
Esta não é a primeira vez que a grafia da língua portuguesa sofre alterações; a última foi em 1971. O professor Celso Pedro Luft, em seu manual de ortografia, apresenta os textos completos das leis brasileiras que estabeleciam a ortografia vigente. Estas alterações aconteceram em 1943, 1955 e em 1971, quando desapareceram os acentos diferenciais e de timbre, assim como os acentos secundários. No Brasil, a instituição responsável por produzir o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) é a Academia Brasileira de Letras; em Portugal é a Academia das Ciências de Lisboa.

 

A preocupação em saber se a língua mudou ou não ocorre, pois a partir deste ano já estaria liberado o uso da nova ortografia; no entanto, tais mudanças foram adiadas para 2009. Também não há motivo para desespero, uma vez que o VOLP ainda não foi atualizado e todo processo lingüístico (linguistíco, de acordo com a nova ortografia), que é feito por imposição carece de tempo para a adaptação de seus usuários.

 

São estas as  mudanças ortográficas  promovidas  pelo  Acordo:

 

TREMA
Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados.

ACENTO DIFERENCIAL

Não se usará mais para diferenciar:
1. “pára” (flexão do verbo parar) de “para” (preposição)
2. “péla” (flexão do verbo pelar) de “pela” (combinação da preposição com o artigo)
3. “pólo” (substantivo) de “polo” (combinação antiga e popular de “por” e “lo”)
4. “pélo” (flexão do verbo pelar), “pêlo” (substantivo) e “pelo” (combinação da preposição com o artigo)
5. “pêra” (substantivo – fruta), “péra” (substantivo arcaico – pedra) e “pera” (preposição arcaica)

ALFABETO
Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras “k”, “w” e “y”.

ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usará mais:
1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos “crer”, “dar”, “ler”, “ver” e seus derivados. A grafia correta será “creem”, “deem”, “leem” e “veem”;
2. em palavras terminados em hiato “oo”, como “enjôo” ou “vôo” -que se tornam “enjoo” e “voo”.
ACENTO AGUDO
Não se usará mais:
1. nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas, como “assembléia”, “idéia”, “heróica” e “jibóia”;
2. nas palavras paroxítonas, com “i” e “u” tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: “feiúra” e “baiúca” passam a ser grafadas “feiura” e “baiuca”;
3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com “u” tônico precedido de “g” ou “q” e seguido de “e” ou “i”. Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem.

HÍFEN

Não será  usado quando a segunda palavra começar com S ou R (as consoantes deverão ser duplicadas, como anti-social/ antissocial) e quando o prefixo terminar em vogal diferente daquela que inicia a segunda palavra (auto-elogio/autoelogio).

 

GRAFIA
No português lusitano:
1. desaparecerão o “c” e o “p” de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como “acção”, “acto”, “adopção”, “óptimo” -que se tornam “ação”, “ato”, “adoção” e “ótimo”
2. será eliminado o “h” de palavras como “herva” e “húmido”, que serão grafadas como no Brasil -“erva” e “úmido”.

 

Atualização em  02/03/ 2013: Por decreto presidencial, a  nova ortografia somente passará  a vigorar em 01 de  janeiro de  2016.

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.

Comentários

  1. Realmente, muito bom o blog. Eu sou contra essas mudanças ortográficas, acredito que muita coisa que vai mudar só vai atrapalhar. Eu leanto uma questão nisso. Nós podemos ver que muito acento vai ser banido, será isso reflexo do “internetês”?

  2. Oi, Andréa! Parabéns pela exposição altamente didática das alterações provocadas na ultima flor do Lácio pelo mais recente acordo ortográfico. Francamente, ainda não me preocupei com as “novidades” porque teremos um tempo de “adaptação”, não é mesmo?! No entanto, faz-se pertinente “pensar” na nova forma e ir se acostumando. Como boa professora de português, acabei escrevendo demais, mas fica o elogio pela exposição didática e completa que colocaste.