Durante muito tempo, ensinar literatura na escola significou, quase sempre, ensinar história da literatura. O aluno aprendia as características do Romantismo, decorava as fases do Modernismo, conhecia alguns dados biográficos dos autores e tentava identificar, em pequenos fragmentos de obras, aquelas características que o professor havia apresentado anteriormente. Não quero afirmar com isso que conhecer períodos históricos, escolas literárias, autores e contextos seja desnecessário. O problema começa quando esse conhecimento ocupa o lugar da própria literatura.
Parece contraditório, mas não é difícil encontrar estudantes que passaram anos tendo aulas de literatura sem terem sido, de fato, convidados a ler literatura. Conhecem José de Alencar, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros autores porque seus nomes aparecem nos livros didáticos e nas provas, mas tiveram pouco contato com suas obras. Nesse caso, cabe uma pergunta que considero fundamental: estamos formando leitores literários ou ensinando conteúdos sobre literatura? A resposta muda completamente a nossa percepção sobre o que fazemos em sala de aula.
Ler não é apenas decodificar palavras
Para compreendermos essa discussão, precisamos começar pelo conceito de letramento. Alfabetização e letramento estão relacionados, mas não são sinônimos. Enquanto a alfabetização diz respeito à apropriação do sistema de escrita, o letramento considera os usos sociais que fazemos da leitura e da escrita, os contextos em que essas práticas acontecem, os objetivos envolvidos e, principalmente, os sujeitos que participam delas.
Isso significa que ler não pode ser entendido apenas como a capacidade de decodificar palavras impressas em uma página. Nós lemos para compreender situações, construir sentidos, participar de práticas culturais e agir no mundo. Toda leitura acontece em determinado contexto e envolve um leitor que chega ao texto trazendo consigo conhecimentos, experiências e outras leituras.
Quando transportamos essa discussão para a literatura, chegamos ao conceito de letramento literário. Rildo Cosson (2009) o define como um processo de apropriação da literatura enquanto construção literária de sentidos. Essa ideia de apropriação é especialmente importante porque nos afasta da concepção segundo a qual estudar literatura significa acumular informações sobre autores, datas, períodos e características de escolas literárias.
Se queremos formar leitores literários, precisamos permitir que o estudante entre em contato com o texto, perceba como a linguagem foi construída, reconheça vozes, imagens e ambiguidades, formule hipóteses de leitura e encontre elementos que sustentem sua interpretação. É preciso também que ele possa relacionar a obra a outros textos, ao contexto em que ela foi produzida, ao seu próprio repertório e às experiências que traz consigo.
Isso não significa abandonar a teoria literária ou a história da literatura. Significa apenas inverter uma lógica bastante comum em nossas aulas: o conhecimento sobre literatura deve estar a serviço da leitura da obra, e não a obra a serviço da memorização de conteúdos sobre literatura. Essa distinção é central quando pensamos em uma prática voltada à formação efetiva do leitor.
E qual é o papel do professor?
Quando falamos em valorizar as leituras realizadas pelos estudantes, algumas pessoas podem interpretar essa proposta como uma espécie de “vale tudo”: cada aluno lê de uma maneira e qualquer interpretação estaria correta. Não é disso que eu estou falando.
A leitura literária permite diferentes construções de sentido, mas essas interpretações precisam dialogar com o texto. Se um aluno apresenta determinada leitura, cabe ao professor ajudá-lo a perceber quais elementos da obra sustentam aquela interpretação: onde está isso no texto? Que palavra, imagem, escolha do narrador, construção sintática ou recurso expressivo permite chegar a essa conclusão? Há outra possibilidade de leitura? O que acontece quando ouvimos a interpretação de outro leitor?
É nesse momento que a mediação docente se torna fundamental. O professor não precisa apresentar imediatamente uma interpretação pronta para que os estudantes a reproduzam. Seu trabalho pode ser muito mais interessante quando cria condições para que as interpretações sejam construídas, confrontadas, ampliadas e justificadas a partir das escolhas linguísticas e formais presentes na própria obra.
Talvez seja necessário, então, rever até mesmo algumas das perguntas que fazemos após a leitura de um texto literário. Se nossas atividades exigem apenas classificação, localização de informações ou memorização, provavelmente estamos ensinando o estudante a responder exercícios, não necessariamente a tornar-se leitor. Perguntas de leitura podem levá-lo a observar a linguagem, formular hipóteses, justificar sua interpretação e conversar sobre as leituras realizadas pelos colegas.
Leia mais no blog:
As reflexões aqui apresentadas são parte das discussões realizadas no curso As literaturas de resistência e de reexistência: a aula de literatura à luz das Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08, oferecido como atividade de extensão gratuita no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários do campus Nilópolis do Instituto Federal do Rio de Janeiro no período de 25/09 a 16/10/2026.
Referências:
COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2009. (Adquira na Amazon).

