Quando uma escola anuncia que vai trabalhar “a literatura africana” ou “a cultura indígena”, é importante fazer uma pergunta: de qual literatura e de quais povos estamos falando? A pergunta não é apenas uma preocupação terminológica. Ela ajuda a evitar generalizações que transformam experiências diversas em uma imagem única: a África não é um país e os povos indígenas não formam um grupo homogêneo. A população negra brasileira também reúne diferentes histórias, territórios, memórias, identidades e formas de expressão. É necessário, portanto, falarmos em literaturas afro-brasileiras, africanas e indígenas, no plural. Essa foi uma das reflexões propostas por mim no curso de extensão “As literaturas de resistência e de reexistência: a aula de literatura à luz das Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08”, oferecido no Instituto Federal do Rio de Janeiro.
Uma palavra pode esconder muitas experiências.
A expressão “literaturas africanas” pode fazer menção a autores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e de muitos outros países. Cada produção está relacionada a histórias, línguas, territórios e contextos específicos. Do mesmo modo, as literaturas indígenas brasileiras são produzidas por autores e autoras de diferentes povos, como Munduruku, Potiguara, Kambeba, Tabajara e tantos outros. Cada escritor ou escritora escreve a partir de uma trajetória, de uma comunidade e de um lugar de enunciação.
Na terceira aula do curso de extensão, fizemos a leitura do conto “Depois do dilúvio” , narrativa de origem e memória Kaingang, transmitida por fórmulas que remetem aos antepassados daquele povo. Quando o narrador inicia o texto com “Os velhos do povo Kaingang contam aos seus netos…”, ele indica que a narrativa contada faz parte da memória coletiva de um grupo étnico específico e não de todo o conjunto de indígenas brasileiros.
A narrativa Kaingang articula a Serra Crinjijimbê, o dilúvio, as metades Kaiurucré e Kamé, a criação dos animais e a aprendizagem da música e da dança. O mito não é apenas uma explicação sobre a origem dos animais; ele organiza relações entre ancestrais, humanos, animais e território, e apresenta conhecimentos transmitidos entre gerações. Desse modo, podemos ver que Daniel Munduruku, escritor que popularizou esse conto, é transmissor do conhecimento produzido por uma comunidade, e não por um indivíduo.
Aula de literatura não pode ser só o que se escolheu como cânone.
Na aula 3, propus a discussão acerca dos conceitos de clássico e cânone. Para o primeiro, retomamos os escritos do crítico Italo Calvino em “Por que ler os clássicos”. Nesse livro, o italiano defende que se enquadra nessa classificação aquele livro que provoca releitura (“Estou relendo…”), efeito de ressonância (a percepção sobre ele muda conforme o leitor envelhece e o relê), deixa marcas no inconsciente coletivo (é tão citado, comentado, estudado, que até quem não leu o conhece) e é atemporal (dialoga com diferentes maneiras de ver o mundo, independentemente da época em que é lido. Uma vez retomado o conceito de Calvino, passamos, então, a conversar sobre a nossa percepção a respeito do uso equivocado do termo “clássico“. É muito comum vê-lo usado como referência a autores do século XIX ou, no máximo, do início do século XX. Dessa forma, ficariam de fora escritores como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e muitos outros.
Em seguida, também consideramos o uso do termo cânone. Roberto Mibielli (2021) afirma que o cânone literário pode ser compreendido como uma seleção de obras e autores que uma comunidade, em determinado contexto histórico, reconhece como relevantes e dignos de preservação e circulação. Essa seleção não representa a totalidade da literatura: é construída por meio de escolhas e exclusões, influenciadas por fatores históricos, sociais, estéticos e político-ideológicos. Críticos, professores e instituições participam desse processo, contribuindo para a consagração de certas obras e para a manutenção de tradições culturais.
Cabe aqui, então, a seguinte reflexão: Sem citar os escritores já consagrados, como Machado de Assis, Lima Barreto e João do Rio, quais escritores negros e indígenas brasileiros fazem parte das escolhas da sua escola, da sua aula de literatura? Quando você pensa em “cânone da literatura brasileira”, quais são os nomes que estão na lista? E já que estamos falando em um curso que se propõe a discutir sobre educação antirracista por meio da aula de literatura, qual é a cor do cânone?
Não adianta apenas inserir um título na lista da escola.
A escola precisa cumprir a legislação e adequar suas práticas àquilo que a legislação educacional obriga e, se pensarmos no tanto de anos que as duas leis já têm, isso parecerá uma discussão tardia. Infelizmente, ainda hoje (2026), muitos professores ainda se veem como elementos solitários no corpo docente, tentando fazer a educação antirracista funcionar.
Portanto, não basta levar para a sala de aula uma única obra indígena, um único autor africano ou um único livro de autoria negra brasileira. Essas leituras podem ser importantes, mas não representam todo um campo literário. A escola pode construir um acervo progressivamente mais plural, incluindo diferentes gêneros, autores, autoras, faixas etárias e perspectivas, mas não pode deixar de responder a uma pergunta fundamental: “Como essas leituras ajudam a consolidar uma nova tradição literária e como impactam as relações raciais na escola?”
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As reflexões aqui apresentadas são parte das discussões realizadas no curso As literaturas de resistência e de reexistência: a aula de literatura à luz das Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08, oferecido como atividade de extensão gratuita no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários do campus Nilópolis do Instituto Federal do Rio de Janeiro no período de 25/09 a 16/10/2026.
Referências
CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007. (Adquira neste LINK da Amazon.)
MIBIELLI, Roberto. Cânone. In: JOBIM, J.L.; ARAÚJO, N. ; SASSE, P. P. (Novas) Palavras da crítica. Rio de Janeiro: Makunaima, 2021, p. 13-42. E-book. Disponível em http://www.edicoesmakunaima.com.br/2022/07/20/novas-palavras-da-critica/ . Acesso em 11 out. 2026
MUNDURUKU, D. Depois do dilúvio. Contos Indígenas Brasileiros. Disponível em https://blogleituraporamor.wordpress.com/wp-content/uploads/2017/09/depois-do-dilc3bavio.pdf

