O combate ao preconceito linguístico

O Conversa de  Português  completou 6 anos  no dia  20 de  outubro e, durante esse semana,  meus  ex-alunos são autores convidados para a comemoração. Hoje, quem escreve é  Pedro Regis, ex-aluno e para sempre  amigo; em breve, colega de  profissão! Em  seu  texto,  ele  aborda  história da  língua (a que  corresponde o termo diacronia , presente no  título de seu artigo), preconceito linguístico e ensino. A base teórica é a Sociolinguística –  subárea da  Linguística que estuda a língua em uso pelas comunidades de  fala e  correlaciona os aspectos  linguísticos e sociais.

Pedro,  muito  obrigada por aceitar  o convite!

Quem  é  Pedro?

Sou o Pedro Henrique Regis, aluno de Letras Português-Árabe da UFRJ. Conheço a professora Andréa desde o ensino médio no IFRJ, durante o qual foi minha professora e até hoje joga na minha cara que eu matava as aulas de química para assistir suas aulas de português. Hahahaha

A verdade é que a paixão pela língua, não só a portuguesa, começou muito cedo e era mais forte que eu. Professores excelentes, a exemplo da minha amiga e colega de profissão Andréa, foram de crucial importância na minha decisão final para o vestibular. Hoje, escrevo a vocês com muito orgulho e deixo aqui meu agradecimento à Andréa pelo convite e pela oportunidade. Agradeço desde já a vocês, leitores, também. Escrevi um mini-artigo que fala sobre a questão do preconceito linguístico e do combate ao mesmo, pautando-se em uma abordagem diacrônica da língua. Espero que gostem.

O combate ao preconceito linguístico, pautando-se em uma abordagem diacrônica da língua

               “A língua é um organismo vivo”. Essa é uma máxima que todos nós deveríamos trazer conosco e, mais importante, tirar do campo das ideias e pôr em prática. Entretanto, a verdade é contundentemente distoante. Sem demagogia, sabemos que há uma clara diferença entre o que nós aprendemos na escola e o que pomos em prática no cotidiano. Isso faz com que o aluno pense “Meu português é errado, o certo é muito difícil”, “Eu falo diferente disso, então não falo português” etc., o que acarreta em um desinteresse pela disciplina e baixo rendimento efetivo. De onde, porém, esse aluno poderia tirar tal pensamento? Simples: do fato de por muito tempo as escolas omitirem para esses alunos aquela máxima que eu apresentei no início do texto. Falta o sentimento de que devemos dominar a língua e não deixar que ela nos domine.

               Um fato engraçado nesse discurso sobre a sociolinguística é que há, dentro da visão normativa da língua, uma hipocrisia que muitas vezes foge aos olhos de quem não tem conhecimento sobre a história da língua. Eu explico: como a maioria de vocês deve saber, o português vem do latim ( assim como espanhol, italiano, francês, romeno etc) e, fazendo uma análise diacrônica do idioma, podemos perceber claramente que as mudanças que ocorreram no latim para que ele desse origem às línguas neolatinas vinham muitas vezes desse “erro” linguístico que a sociedade tanto demoniza. Ao longo dos anos as palavras sofreram mudanças, metaplasmos, que são processos de mudança fonética, seja por acréscimo, supressão ou troca de sons. Por exemplo, a palavra olho – veio do latim oculu > oculo > oclo > olho: primeiramente, houve uma harmonização vocálica seguida de síncope e, finalmente, palatalização. Vale ressaltar que as línguas neolatinas foram formadas, majoritariamente, pela mescla de línguas autóctones com o latim VULGAR. Mas eu lhes pergunto: será que alguém tava preocupado com o indivíduo lá falando oclo no lugar de oculo? Talvez sim, talvez não, o importante é que a essência da palavra, seu significado continua presente depois de séculos e nós ainda conseguimos nos entender e, quando alguém quer se referir ao olho, abre a boca e diz OLHO e todo mundo sabe o que quer dizer. Ainda que essa pessoa diga “ôio”, nós ainda somos capazes de entender.

               Gostaria de deixar claro que a proposta aqui neste breve artigo não é instaurar a ideia de uma anarquia linguística ou gramatical, não, definitivamente. A grande questão aqui é o respeito pela produção oral alheia e o grande criticismo que isso envolve. Vivemos em uma sociedade em que julga-se demais, e no âmbito linguístico não seria diferente. Comumente observamos associações de idioletos (produções linguísticas individuais) a classe social, região, grau de escolaridade etc, o que não configuraria um problema se, juntamente a isso, não viesse também o julgamento de índole, caráter, e a tentativa de sobrepujar o cidadão com base na sua oratória. Pensemos 3, 4 vezes antes de criticar alguém com relação a sua fala por: a) nós também erramos; afirmo aqui, categoricamente, que não há UM indivíduo falante de língua portuguesa que não se utilize de construção distoante ao que manda a norma culta ou padrão; b) nunca se esqueça que, a exemplo do latim e do português arcaico, o “erro” (ênfase nas aspas) de hoje pode ser a “regra” (ênfase nas aspas novamente) de amanhã. Até mesmo a língua portuguesa (do Brasil) poderá perder esse título para língua brasileira, ou língua “insira-aqui-nome-mais-adequado-se-houver”. O que importa, para terminar, é entender que uma língua tem como objetivo fundamental a comunicação e a interação dos indivíduos, e as escolas, de uma vez por todas, TODAS as escolas do nosso país precisam mostrar para seus alunos que existe SIM diferença entre os discursos nas mais variadas situações, mas que a fala deles não é ilegítima ou menos qualificada que qualquer outra. Uma vez estabelecida a comunicação, cumpriu-se, pois, a missão principal da língua.

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.