Redação do ENEM: por que tantos zeros?

As  notas do Exame  Nacional do Ensino  Médio, realizado em 8 e  9 de novembro de 2014,  foram  divulgadas  pelo  INEP  em 13 de janeiro. Para  surpresa de todos, as notas de  Redação foram muito  inferiores  ao  esperado e o número de  redações que obtiveram nota zero foi  superior a  529 mil.  A pergunta da semana foi: o  que  aconteceu?

Veja abaixo o  quadro geral de  notas  da  redação:

notas_redacao

As redes  sociais –  em   especial, o Facebook –  parecem  ter sido  o  principal  espaço de  repercussão das  notícias  sobre o  Exame.  Naquela  rede,   não tardaram  os comentários  acerca da  formação dos  professores,  do  ensino de língua portuguesa e da qualidade  da escola pública.

Foto: Reprodução INEP. Os alunos da rede pública federal obtiveram as maiores notas entre as redes de ensino
Foto: Reprodução INEP. Os alunos da rede pública federal obtiveram as maiores notas entre as redes de ensino

Todos  esses dados precisam ser pensados e repensados, mas aparentemente ninguém lembrou das  competências e  habilidades exigidas  dos  candidatos e dos aspectos que  poderiam resultar em   nota  zero de  acordo com  o  Edital da  prova. A redação do ENEM cobra  cinco competências e a cada uma é  atribuída  uma  nota de 0 a  200 pontos, totalizando  1000 pontos.  Veja  quais  são:

Competência 1: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua  portuguesa.

O candidato deve  observar, entre outras coisas, a correção gramatical e grafia  correta das  palavras,   significado preciso de  termos utilizados, pontuação e  morfossintaxe.

Competência 2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.

Esta  habilidade  refere-se  à  capacidade de  compreensão do texto lido e  da proposta apresentada pela  banca. É, portanto,  uma  questão de  leitura atenciosa dos  textos motivadores. Além disso, o  candidato deve redigir  seu  texto de  acordo com a  modalidade  discursiva indicada!

Competência 3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.

O  candidato deve  ser  capaz de  organizar as  ideias  em  seu texto. Aqui  ele deverá aplicar  o que  aprendeu, ao   longo de  sua  formação,  sobre  coerência.

Competência 4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários à construção da argumentação.

O estudante deve  lembrar  que  a argumentação é construída por  meio de recursos  linguísticos  específicos e deve  por  em prática o que  aprendeu sobre o emprego de  elementos coesivos.

Competência 5: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

Espera-se que, após discutir e  avaliar  os  problemas descritos  em  sua  redação, o estudante seja  capaz de apresentar  propostas práticas de  solução, de  acordo  com  os argumentos apresentados no  texto. A proposta de  intervenção não deve  conter  nada  que   possa ser entendido como  desrespeito  às  diferenças  de  raça, religião, orientação sexual  e  similares.

Depois das  “gracinhas”  ocorridas em  2012 e  2013 –   como, por exemplo, a  inserção de  receitas de  macarrão e  a   cópia dos  textos de  outras  partes  da prova – é  natural que   a  banca de  correção tenha ampliado os  seus  critérios de  avaliação e  se   tornado bem  mais exigente. De  acordo com  o  Edital 2014 do  ENEM,  eram  esses  os  critérios para atribuição de  nota zero:

  • Fuga ao tema.  Em  2014, o  tema   da redação foi publicidade infantil e  surpreendeu   muitos alunos  que  esperavam escrever  sobre  escassez de água  ou   esportes.  Muitos  já  haviam  “ensaiado” nos  cursinhos o texto que seria  escrito!
  • Não obediência  à  estrutura dissertativo-argumentativa. O candidato escreve  um  texto narrativo ou   qualquer  outra  modalidade que   não seja a  solicitada. Veja nosso artigo sobre  modalidades  discursivas e  gêneros  textuais.
  • Texto  insuficiente. A banca  só corrige textos que  contenham  mais de  8   linhas  autorais; isso   significa  que  também  não adianta  usar  trechos da  coletânea da prova. 
  • Folha de  resposta em branco. O aluno  fez  a redação no  rascunho e  não transcreveu  para a folha de  redação.  É  o  mesmo  que  não   fazer! A banca do  ENEM   não  é  o seu professor da escola:   ninguém vai dar  uma  olhadinha no seu rascunho!
  • Desrespeito aos direitos humanos. A dica  é  simples:  não escreva  nada  preconceituoso!
  • Parte do  texto deliberadamente desconectada do tema proposto.   Se  a banca  ficou mais  rigorosa nos   últimos  anos,  a  culpa  é daquela  receita  de   miojo  na prova de  2012! Naquele  ano, os  critérios  eram  diferentes e  o candidato engraçadinho perdeu apenas parte dos  pontos.
  • Impropérios, desenhos   e   outras  formas deliberadas  de anulação. Precisa  comentar?
  • Cópia dos  textos motivadores.  Se o candidato copia  os textos, demonstra  falta de  criatividade e a  banca  não  é  paga  para  corrigir  textos  que ela  mesma  selecionou  para a  elaboração da prova. O  nome disso  é  PLÁGIO!

 

Se considerarmos todos os  critérios de  atribuição de  nota zero, apenas  um deles   está diretamente relacionado aos conteúdos que  devem   ser  aprendidos  pelo estudante  ao longo de  sua  formação na  educação básica: a estrutura da  dissertação argumentativa. Todo o resto é uma questão de  leitura atenta do edital e do que  é  apresentado na   folha  de  redação!

 

Leia  mais  no   blog:

Seis   mitos  sobre a  redação do ENEM

Questões  comentadas

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.