Um pouco mais de Romantismo

O  texto de hoje é  continuação da resposta publicada  para a leitora T. Costa que nos solicitara algumas  dicas  sobre o  Romantismo  na Literatura. O  assunto é  extenso e eu decidi  escrever mais de um artigo.
Algumas características ilustram  bem o espírito romântico:
1. Individualismo  e  subjetividade.
O romântico é  individualista. O  mundo  é apresentado através da personalidade do eu-lírico.  O  artista   valoriza  a paixão, a  intuição, a liberdade pessoal  e interior, a melancolia.
han03_charpentier la Mélancolie Melancolia. Constance Charpentier, 1801. Óleo sobre tela.
Desânimo
Álvares de Azevedo

Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam… se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece…
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!

Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento…

E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu’alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d’infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?

2. Misticismo.
O indivíduo busca explicações  além do catecismo cristão , a fim de explicar  seus  dilemas  existenciais.
3. Escapismo.
É o desejo romântico de  afastar-se da realidade para  um mundo idealizado.  Esta característica   já  estava  presente no Neoclassicismo sob o  rótulo de fugere urbem, porém, naquele momento literário, o poeta  utilizava imagens  campestres para representar a fuga da realidade. No Romantismo, o escapismo  pode  ser representado  pela loucura, pelo  sonho, pela imaginação, a  morte ou a fuga no  tempo (lembranças infantis, passado histórico, especialmente a Idade  Média).
4. Reformismo.
O espírito romântico é  revolucionário. Autores românticos, como Castro Alves, engajaram-se em movimentos libertários  e democráticos.
A cruz na estrada
Castro Alves

Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.

Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.

É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.

Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.

Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.

Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.

5.  Culto da  natureza.
Durante o Neoclassicismo, a natureza  era cenário; no  Romantismo, será  a representação dos sentimentos  do eu poético.
6. Nacionalismo.
A literatura romântica europeia mostrava  a decadência dos governos  absolutistas enquanto a literatura feita no Brasil  mostrava  o desejo de  independência da colônia e propunha a construção de identidade  nacional.
7. Idealização  do  amor e da imagem  do  herói.
O  amor romântico é apresentado como remédio para os males da alma, ao mesmo  tempo em  que   também  é causador da  melancolia do amante.  O herói é  dotado de   virtudes físicas  e  morais que  o fazem ser digno de sua  amada. A dama é representada  pela   figura da mulher  impossível (imagem emprestada das cantigas trovadorescas).
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Fontes de  pesquisa:
AZEVEDO, Álvares de. Desânimo. Disponível em: <http://www.revista.agulha.nom.br/avz2.html#desanimo> Acesso em 7/08/2010.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 33.ed. São Paulo: Cultrix, 1999.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil.16.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.

Comentários

  1. Ah, amei essa parte aqui também.
    Se fosse possível, queria um pouco mais da sua explicação sobre essas três fases do romantismo aqui no Brasil.
    A 1° era a super valorização da terra.
    A 2°, era conhecido com mal do século, pela melancolia e tal;
    A 3°, eles buscavam uma libertação para a sociedade. Eles começaram a pensar mais no social.
    É isso?
    Beijos