Eu não gosto de política

“Eu  não  gosto de  política!” é  uma das frases mais  ouvidas quando surge alguma notícia sobre corrupção no país. Nos  últimos   oito  meses, a presidente Dilma Roussef já  exonerou boa parte de seus ministros – ela  diz que isso  é  uma “faxina”. Qualquer dona de casa sabe que faxina só  é   feita quando  a casa está suja. Não  fui  eu  que escolhi os ministros… Só  tenho  culpa de ter votado  mal para vereador,  governador,  deputado estadual,  deputado federal,  senador e…  Mas voltando ao assunto:  O que  é política?

Política   s. f.  1. Ciência do governo das nações.  2. Arte de regular as relações de um Estado com os outros Estados.  3. Sistema particular de um governo.  4. Tratado de política.   5. [Figurado]  Modo de haver-se, em assuntos particulares, a fim de obter o que se deseja.  6. Esperteza, finura, maquiavelismo.  7. Cerimônia, cortesia, civilidade, urbanidade. (Dicionário  Priberam da Língua Portuguesa)

Independentemente daquilo  que apareça  no dicionário, uma coisa  é  certa:  nosso cotidiano é  decidido por ações políticas  –  partidárias ou   não.  Quando  dizemos  “odiar política”,  estamos pensando  na política partidária mal feita e é esta que decide o  preço do  feijão, do  arroz,  da luz,  da água e o  valor do  imposto.  Em 1 de outubro  de  2008,  eu  publiquei o texto  Voto consciente  em  meu  blog Leio o  Mundo Assim e de lá transcrevo  um trecho:

Se temos   políticos  corruptos, caríssimo leitor, tratemos de   fazer a  mea  culpa, pois  foi o nosso  voto  que o elegeu; temos  os  políticos  que  merecemos e escolhemos. E cá entre nós: ninguém   vira  mau cárater  de um dia  para o  outro; como  cidadãos, eles  certamente já demonstravam desvios  de  conduta: suborno ao  guardinha para não anotar  aquele estacionamento  em local proibido ou o avanço naquele   sinal  vermelho ; a cervejinha do policial a fim  de evitar a  multa por ter bebido demais e outras coisinhas… O nome disso tudo  perante a lei é   corrupção ativa e  não se refere apenas  aos  parlamentares, não! Então, por que o espanto quando o seu vereador  aparece na  imprensa  sob acusação de ter  subornado um aqui, outro ali? O suborno só ficou mais caro! A questão é  se ele  será merecedor  do  seu  voto em  outro  pleito ou   não…
Antes que algum leitor desaviado e implicante queira questionar por que motivo  apareceu  um texto sobre política no blog Conversa de Português,  esclareço com a ironia machadiana:  “Limpe os óculos, leitor! Certamente, o problema deve ser dos óculos!”.  Este blog é  sobre língua portuguesa,  literatura e EDUCAÇÃO  –  está escrito  lá  no  cabeçalho; portanto, limpe os óculos!  A qualidade da educação que eu  ofereço em minha sala de aula,  a decisão de um professor aderir a uma greve ou não,  o governo  construir escola,   a  formação continuada do  professor e tantas outras coisas que influenciam  o  dia a dia de uma escola são decisões políticas.   E, principalmente,  é  minha decisão  política escrever sobre isso  no  meu  blog e fazer os meus alunos pensarem  sobre isso.  Continuo dizendo: “Odeio política!”, mas encontro em Bertold Bretch a minha motivação para falar sobre o  assunto e encerro  com ele este post.
O analfabeto político
Bertold Brecht

O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
Nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha,
Do aluguel, do sapato e do remédio
Dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
É tão burro que se orgulha
E estufa o peito dizendo
Que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
Nasce a prostituta, o menor abandonado,
E o pior de todos os bandidos,
Que é o político vigarista,
Pilantra, corrupto e lacaio
Das empresas nacionais e multinacionais.

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.

Comentários

  1. Na minha turma da faculdade a gente tem uma frase que usamos em coro(porém em voz baixa hehe) quando gostamos de alguma coisa que um colega fez. É assim: Muuuuuuuuuuuuuuuito bom!

  2. Andrea, ADOREI o texto, só pude ler agora.
    Concordo com você, pq mais do que nunca sou uma das pessoas mais críticas com a situação política partidária desse país e do comodismo desse povo. Eu sempre digo que o problema não é o Brasil, o problema é o povo que precisa aprender MUITA coisa, e a educação é a base de tudo isso.

    1. Sabrina, obrigada pela visita e pelo comentário deixado também no outro texto. Você disse bem: somos um povo acomodado. Infelizmente, falta descobrir que política também se aprende na escola.

  3. A administração pública brasileira, atualmente apresenta uma série de mecanismos de participação social na gestão pública, com prioridade por resultados e qualidade dos serviços prestados ao cidadão,no entanto, a sociedade precisa reconhecer a importância dessa participação e fazer uso dos mecanismos disponibilizados, para acompanhar, controlar e supervisionar os serviços prestados.

  4. Parabéns pela lucidez do texto, Andréa. É a primeira vez que visito o blog; gostei muito, voltarei muitas vezes. É sempre estimulante quando vejo uma colega professora expressar com clareza a importância da política em nossa profissão. Seu texto me lembrou uma frase antiga que diz: quem não gosta de política, é governado por quem gosta.
    Apenas a título de contribuir com a reflexão vou colocar um pouco de pimenta (afinal, sou baiano) no conceito de “povo acomodado” que a Sabrina Veloso trouxe e você concordou.
    Pra mim, essa é uma afirmação com uma carga ideológica mais pesada do que parece. A depender do ponto de vista histórico que se observe, essa suposta acomodação do povo brasileiro, pode revelar um olhar elitista, autoritário e até preconceituoso.
    Pelo perfil do blog, tenho certeza que não é essa a sua intenção, nem da comentarista; entretanto, é importante considerar que a origem de nossa nação passou por um parto colonial, violento e escravocrata que ainda marca corações e mentes. Apesar de um cotidiano de violência social, econômica, educacional, religiosa, cultural, concreta e simbólica, foi a luta dos movimentos sociais quem provocou essa fenda de liberdade que vivemos hoje. Apesar do boicote informativo, foram os muitos movimentos (nada acomodados) de nosso povo que produziram a revolta dos búzios, dos alfaiates, a sabinada, o 2 de julho, a da chibata e tantas outras [ainda] negadas nos livros didáticos. Me parece que, se levarmos em conta o contexto histórico do poderio das elites, da sua capacidade de abortar, desvirtuar, confundir e tentar retardar diversos movimentos emancipatórios ao longo do tempo, verificaremos que nosso povo não tem nada de acomodado. É verdade que a maioria de nós, por enquanto, usa muito pouco nossa capacidade de discernimento e de construção solidária; é verdade que o poder hegemônico ainda conduz a maior parte de nossa força construtiva para manter uma estrutura alienante, muito individualista e propensa a um “suicídio social”. Se não revertermos, logo, essa hegemonia, o desastre alcançará a todos. Do meu ponto de vista, esse quadro é mais decorrente do feroz poder anestesiador das elites e dos que se beneficiam das migalhas materiais dessa estrutura perversa do que da acomodação do povo. Se olharmos com olhos fora das viseiras da grande mídia e fora do preconceito aristocrático de quem não se interessa por contexto histórico, enxergaremos milhares de iniciativas ousadas, criativas e solidárias que construíram e constroem alternativas de superação do poder hegemônico.

    Acho muito salutar denunciar a tentativa anestesiante do poder hegemônico (lamentavelmene, ela tem estado predominante nos últimos séculos), mas não podemos confundi-la com acomodação – fica parecendo que quem aponta a acomodação é superior e melhor do que os “outros”, os supostamente acomodados. Mesmo, algumas vezes, não intencionalmente (como, acredito, foi o caso nesse blog), essa postura fortalece o que há de mais caro ao processo de dominação anestesiante: a separação entre NÓS e ELES. A exclusão, a dominação, o servilismo, a alimentação da ignorância e tantas formas simples ou sofisticadas de negação dos direitos humanos universais, enquanto direito de todos (aí incluídos, além das pessoas, os minerais, vegetais, animais e outras formas de vida) está assentada nessa premissa ilusória que existe o NÓS versus ELES. Nós, os mais informados/mais consciente/mais comprometidos/que compreendem as necessidades de mudança e eles, os acomodados/os preguiçosos/os que não querem mudar. Me parece que um dos trabalhos preliminares para quem pretende contribuir para parar de negar a existência da política na prática pedagógica das nossas salas de aula é superar essa visão de nós versus eles. O trabalho de conscientização política é um movimento, quase natural, de quem não está imerso no caldo anestesiante de querer ser melhor que qualquer outro. A reflexão sobre igualdade (enquanto direito de todos de ter oportunidade de acesso à herança cultural da humanidade) e diferença (enquanto princípio fundante de convivência saudável) pode nos ajudar a lidar com a política de uma maneira convergente, sem cair na armadilha de reproduzir ângulos preconceituosos, mesmo que bem intencionados.
    Se houver interesse em aprofundar mais esse assunto, há um delicioso texto do prof. Miguel Arroyo que contextualiza muito bem o histórico do preconceito contra o povo: “Educação e exclusão da cidadania”, inserido no livro “Educação e cidadania: quem educa o cidadão?” publicado pela Cortez Editora em 1987 e organizado por BUFFA, Ester; ARROYO, Miguel e NOSELLA, Paolo. A leitura do trecho “contra a tirania e contra o povo” é muito esclarecedora.

    Desculpe a extensão do meu comentário: seu texto foi tão inspirador que me empolguei. De todo modo, é só mais um ângulo possível. Abraços, Washington Carlos