Como usar o gerúndio?

“Senhora, nós vamos estar enviando” é o título de um dos primeiros textos  publicados no Conversa e o objetivo, na época, era abordar o uso equivocado que se faz  do gerúndio – umas das formas nominais do verbo. Nunca é demais lembrar um conceito e, por isso, escrevo  o segundo  artigo  sobre o tema.

Naquele  texto, eu fazia a seguinte observação:

Esta construção esquisita tem sido chamada de gerundismo. O gerúndio tem, na língua portuguesa, duas funções: indicar a continuidade da ação, como na frase “Ele continua lendo aquele livro“, na qual se fala de uma ação iniciada no passado e ainda não concluída,   como a que está presente na forma ” Ele anda lendo um livro“, uma expressão coloquial de sentido semelhante à anterior.

O  gerúndio  apresenta duas   formas: uma simples (lendo) e outra composta (tendo ou havendo lido). Em sua forma simples  (aquela  terminada em –ndo, como  em   falando, comendo, agindo), expressa uma ação contínua.  Em sua forma composta, com dois  verbos, indica uma ação durativa ou  uma ação concluída antes da expressa pelo verbo da oração principal.

  Exemplos:

Estou ligando para a casa de meus avós.”  A locução verbal  indica que  há uma ação em  processo.

Tendo terminado as tarefas domésticas,  a menina foi  ao cinema com as amigas.” A ação concluída antecipa a saída com as  amigas.

“Eu ando acordando indisposta.” A locução enfatiza uma ação durativa ou  a insistência de um acontecimento.

“A conversa estava boa,  o tempo foi passando e perdemos a hora do ônibus.” O  verbo ir seguido de gerúndio expressa uma ação durativa realizada progressivamente.

Na linguagem  popular, pode substituir a  forma imperativa: “Andando!” (=Vá andando! Ande!).

Na construção que originou  nossa  reflexão, o problema reside no   fato de não  existir ali uma ação durativa.  A intenção da atendente, ao dizer “Vamos estar enviando”, é comunicar ao cliente o procedimento de sua operação, que certamente  não duraria o  dia inteiro.

 

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.

Comentários

  1. Oi Andréa,
    como você informou na 1ª frase, o pessoal que cometia muito esse "gerundismo" eram os atendentes de telemarketing. Esse fato foi tão debatido na mídia, e até mesmo as novelas inseriram esse tema em suas tramas, que podemos perceber a queda do gerúndio nas informações desses respectivos funcionários.
    Adorei o seu post. Muito esclarecedor.

  2. Na verdade o uso excessivo e incorreto do gerundio ainda é uma realidade irritante da abordagem por atendentes de telemarketing. Seria interessante a orientação desses profissionais através de treinamento específico. Muito bom o seu texto! Deveria ser incluído no tal treinamento.(rs)