Educação

Estão tentando matar os professores brasileiros

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“Estão tentando matar os professores brasileiros”: essa frase pareceria forte demais e até um pouco alarmista se os dados estatísticos não a confirmassem. Pesquisas divulgadas pelo portal G1 e pela BBC Brasil demonstram que cerca de 65% dos professores brasileiros já sofreram algum tipo de agressão no ambiente escolar. Apesar de todo discurso político e social sobre a necessidade de “valorização docente”, o Brasil lidera o ranking internacional da violência contra a categoria. Em muitos desses casos, o agressor é o aluno, o que demonstra que pais falham miseravelmente na formação dos filhos e que não há políticas públicas eficazes de amparo ao profissional da educação.

Educação doméstica. Papel dos pais na educação de respeito aos professores.

Quando eu era pequena, meus pais me davam três orientações antes de sair para a escola: “Preste atenção à aula, faça suas tarefas e respeite seus professores”. Minha mãe ainda completava, dizendo que, em casa, quem mandava em mim eram os meus pais, mas, na escola, eram os professores. Essa orientação simples estabelecia uma distinção importante: na escola, o professor deveria ter autoridade para ensinar e organizar o ambiente; no entanto, minha percepção, como a de muitos colegas, é a de que os pais se esqueceram do seu dever primordial que é o de educar os filhos para a convivência com outras pessoas e o respeito aos mais velhos.

No início da minha carreira como professora de língua portuguesa, vi direção de escola convocar reunião para apenas para dizer aos professores que eles eram funcionários dos alunos; vi responsável dizer na frente do filho que “não sabia mais o que fazer para educá-lo”. Se gestão e família são omissos, o aluno aprenderá a respeitar o professor? É claro que a família não pode ser responsabilizada sozinha pela violência escolar, mas sua participação na formação ética dos jovens é indispensável. E aqui a pergunta é óbvia: quem protege o professor?

Políticas públicas: quem cuida de quem ensina?

Diversas são as políticas públicas voltadas ao atendimento dos estudantes e raras as de apoio ao professor. A Lei Nº 13.935/2019 prevê a presença de equipes multiprofissionais, com psicólogos e assistentes sociais, nas redes públicas de educação básica, inclusive para mediar as relações sociais e institucionais. Já o parágrafo segundo da Lei Nº 14.819/2024, que institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, reconhece professores e demais profissionais da escola como integrantes dessa comunidade e garante, em tese, o acesso à atenção psicossocial. Além dessas, a Lei Nº 14.681/2023 criou a Política de Bem-Estar, Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho e Valorização dos Profissionais da Educação, com diretrizes para prevenir o adoecimento, melhorar as condições de trabalho e promover a saúde integral. Mas a pergunta permanece: essas leis estão efetivamente presentes no cotidiano das escolas ou continuam restritas ao papel?

Embora a Lei Nº 14.681/2023 represente um avanço por reconhecer que os profissionais da educação também precisam de proteção e cuidado, ela não assegura orçamento específico, não detalha quais serviços deverão ser oferecidos nem define mecanismos suficientemente rigorosos de fiscalização e responsabilização. Muitas escolas ainda não contam com equipes multiprofissionais em número suficiente, e os profissionais que já enfrentam situações de violência nem sempre encontram acompanhamento psicológico, mediação de conflitos ou orientação institucional. E assim, esse e outros documentos legais parecem ser mais uma “Lei para inglês ver”; ou seja, existem, mas não funcionam.

Até quando veremos relatos de professores que desistiram do magistério? Até quando saberemos de professores agredidos dentro e fora da sala de aula? Se nada concreto for feito, há risco de o discurso sobre bem-estar ser reduzido ao autocuidado, como se o professor fosse o único responsável por enfrentar um problema que também é produzido por salas superlotadas, jornadas extensas, falta de apoio e ausência de políticas de proteção.

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2 Comments

  1. Perfeito, Andréa.
    Vivemos tempos difíceis em que o professor é tudo, menos professor: ele é psicólogo, agente de segurança, babá, menos professor. A inversão de valores, o paternalismo político e assistencialismo partidário deixaram a Escola com a responsabilidade que antes cabia à família. Quando era aluna, minha mãe já me ameaçava caso eu ousasse desobedecer meus professores. Era punida severamente. Sempre me ensinou que o meu futuro estava na escola e que somente o estudo me daria um futuro. Para uma criança pobre, da periferia, estudar além de ser um ato de resistência, era sobrevivência social na sua plenitude. Hoje em dia, a família valoriza a escola, o professor? A escola se tornou um espaço onde os direitos dos alunos são exigidos e cumpridos, mas os deveres deles são suavizados por assistencialismo e politicagens.

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Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa , Literatura e Formação do Leitor Literário no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

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