“Meu aluno do Ensino Médio não sabe acentuar a palavra óculos”, desabafou o professor de outra disciplina em uma reunião pedagógica meses atrás. Há alguns dias, um outro afirmou sentir falta das aulas sobre orações subordinadas, o que me deixou bastante intrigada, visto que, sendo outra a sua área de atuação, ele não conhece os programas de língua portuguesa. Em ambos os casos, respondi que decorar regras de acentuação e nomenclaturas gramaticais não garante um efetivo aprendizado da língua.
Entendo essa angústia dos colegas, mas penso que suas falas são sintomas de uma visão tecnicista, que reduz o processo educacional a avaliar se o aluno sabe acentuar uma palavra ou somar 2+2. Não estou afirmando que o ensino de linguagens e matemática não seja importante. O que estou dizendo é que educação linguística não pode ser resumida a verificar se o aluno decorou a regra das proparoxítonas ou se decorou o nome da oração subordinada adjetiva explicativa. Como disse um colega de língua portuguesa, “Decorar nomenclatura de oração é como decorar os 18 nomes de D. Pedro I. Serve para quê? Ele é Pedro I e ponto final!”
Por que estudamos/ensinamos língua na escola?
Bagno (2012) afirma que “a língua é um universo multidimedensional de saberes, práticas, crenças, histórias, ritos, mecanismos de poder, papéis sociais” e que, ao entrar na escola, o aprendiz entra em contato com “outras comunidades, outros modos de ser, outros jeitos de falar, outras redes sociais”. Naquele ambiente, o estudante será exposto a diversas possibilidades de letramento (Confira o conceito neste texto). Em outras palavras, ensinamos o conhecimento linguístico e os usos com os quais o aluno não está familiarizado fora da escola.
Nesse sentido, o ensino de língua precisa responder, entre outras questões, à pergunta “Qual a função da gramática na atividade discursiva?” (ANTUNES, 2014, p. 13). É possível que alguém responda que o aluno precisa da gramática (E de que conceito de gramática estamos falando?) para realizar os exames vestibulares; eu, no entanto, pergunto: as únicas atividades discursivas possíveis são aquelas exigidas pelos testes de conhecimento oficiais? E na vida?
Quando ensino sobre as orações em sala de aula, costumo partir de um exemplo muito simples após dizer à turma que comigo “não tem esse negócio de decoreba de oração”, pois o meu objetivo é lhes mostrar que tal conhecimento serve para tornar o nosso texto mais claro, mas objetivo. Uso, então, as seguintes frases:
- Minha tia que mora em São Paulo virá para o Natal.
- Minha tia, que mora em São Paulo, virá para o Natal.
Os alunos, ávidos em exibir seu conhecimento sobre as orações subordinadas adjetivas, respondem logo que a primeira oração é uma RESTRITIVA e a segunda, uma EXPLICATIVA. Certíssimos! Eu, então, pergunto-lhes o que isso significa e eles respondem que as explicativas são isoladas por vírgulas. Quando eu pergunto qual mensagem cada uma das frases realmente transmite, ninguém sabe responder… Mas todo mundo decorou o nome das orações!
A vírgula não muda tudo, mas indica uma mudança!
O trecho objeto de nossa análise será “que mora em São Paulo”, essa é a nossa oração adjetiva; ou seja, a oração que atribui uma característica à expressão “minha tia”.
Na frase 1 (sem as vírgulas), temos uma oração subordinada adjetiva restritiva . O que significa? Eu tenho mais de uma tia e apenas uma delas, a que mora em São Paulo, virá para o Natal. Nesse caso, não usamos as vírgulas para isolar a oração subordinada.
Já na frase 2 (com as vírgulas), o mesmo trecho configura uma oração subordinada adjetiva explicativa. Aqui, eu tenho somente UMA tia, apresentei uma informação acessória a seu respeito e uso as vírgulas para isolar a explicação que até poderia ser suprimida.
Observe que só decorar a nomenclatura não contribui para a compreensão de que, embora sejam duas frases muito semelhantes, as informações expressas por elas são muito diferentes! É o caso típico em que o desavisado diria que “a vírgula muda tudo!”. O sinal de pontuação não mudou nada; eram duas frases, duas informações distintas. Esse conhecimento linguístico é dado na aula de Sintaxe, aquele campo que dá conta das orações e outras coisitas…
Toda essa conversa aqui serviu para levantar o seguinte debate: por que todos se acham capazes de dar palpite sobre o ensino de língua portuguesa, mas não o fazem, por exemplo, com química, biologia, matemática…? Será que o ensino dessas disciplinas permanecem parados no tempo, como se espera do ensino de LP? Ou será que, pelo fato de sermos todos falantes de língua portuguesa, isso nos dê algum tipo de autorização para emitir todo tipo de opinião, ainda que equivocada?
Dicas de leitura sobre o assunto:
Gramática contextualizada: limpando o pó das ideias “simples”, de Irandé Antunes, Parábola Editorial. CLIQUE aqui para ver livro no site da editora.
Gramática pedagógica do português brasileiro, de Marcos Bagno, Parábola Editorial. CLIQUE aqui para ver no site da editora.

