Educação Língua Portuguesa

Leitura não é um “problema” só do professor de português

A quem cabe o ensino de leitura e escrita? Não me refiro aqui ao processo de alfabetização, por meio do qual o aluno aprende a “desenhar” letras e a decodificá-las, mas àquele processo que permite ao indivíduo compreender o que leu e estabelecer relações entre o texto e suas funções sociais.

Muitas vezes, observo colegas de profissão queixando-se de alunos que leem os textos de suas disciplinas, mas não os compreendem. Em uma dessas situações, ouvi que a solução seria “ler muitos livros literários”. É o tipo de pensamento que responsabiliza o professor de língua portuguesa por todas as falhas de formação e de leitura que o estudante teve ao longo da vida e que desconsidera que esse pode ter outros problemas de aprendizado. Além disso, também demonstra o desconhecimento de que textos de áreas diferentes demandam estratégias de leitura diferentes.

Carvalho e Ferrarezi (2018) afirmam que

Chega dessa conversa boba de professor de matemática reclamar que os alunos não resolvem os problemas porque não sabem ler o enunciado. “As contas, eles sabem fazer”, porque ele ensinou, mas “ler o enunciado, eles não sabem porque o professor de português não ensinou”. Isso é “conversa para boi dormir”, pois as competências comunicativas perpassam todas as áreas e são essenciais para o aprendizado em todas elas. Todos são responsáveis, todos são beneficiados quando os alunos aprendem e, assim, todos devem contribuir para esse ensino.. (p. 33)

Uma reflexão semelhante foi provocada pelo professor Luiz Carlos Menezes, em seu artigo “Língua Portuguesa em todas as disciplinas”, publicado na edição 221 da Revista Nova Escola: “Aprende-se a ler e a escrever o tempo todo e em qualquer disciplina”.

Nem o professor Luiz Menezes sugeriu, nem eu afirmei que os professores de outras disciplinas devem assumir um papel que é do profissional de Letras. A questão aqui é outra: é cada um assumir, dentro dos limites da sua área de formação a responsabilidade pelos diversos letramentos do aluno.

Será que as estratégias usadas para compreensão de um poema de Castro Alves, por exemplo, são as mesmas empregadas na leitura de um texto histórico? Lê-se um mapa, na aula de Geografia, da mesma forma que se observa um fenômeno físico? Lemos uma crônica de Rubem Alves com o mesmo olhar que o fazemos ao ter contato com a Carta de Pero Vaz de Caminha? Essas são reflexões que precisam ser feitas por docentes de todas as áreas.

Referências:

CARVALHO, R. ; FERRAREZI JR, C. Oralidade na educação básica: o que saber, como ensinar. São Paulo: Parábola, 2018. (Adquira neste link)

MENEZES, L. C. A língua em todas as disciplinas. NOVA ESCOLA. São Paulo: Abril, n. 221, 2009. Mensal. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/755/a-lingua-em-todas-as-disciplinas. Acesso em: 30 jul. 2022.

2 Comments

  1. Mais um artigo breve e egrégio. Gosto muito da tua escrita, Andréa. E, para mim, estas são reflexões essenciais que todo professor em formação deveria exercitar antes de tornar-se um profissional na área almejada.

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Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa , Literatura e Formação do Leitor Literário no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

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