ENEM 2016 – Questões comentadas: variação e variedade linguística

A série  ENEM 2016 – Questões  comentadas foi  lançada e  segue modelo  similar ao  utilizado aqui   no  blog  Conversa de Português  desde o Exame de 2014.  A estrutura é a seguinte: apresentação da questão, gabarito oficial, comentário e links para estudos.   Para os  comentários do Exame aplicado em  2016, utilizo o caderno CINZA como referência  para o  gabarito.  No primeiro  texto referente ao  Exame  aplicado em  2016,  apresentei as questões 96 e  133, cujo  tema  foram  as  figuras de linguagem.   Abaixo, os leitores encontrarão a  análise  das questões 115, 121,  126 e 131.

As  variações e variedades linguísticas são estudadas pela Sociolinguística. Essa  ciência  parte do  princípio de que todas  as  línguas  naturais  mudam e  tais  mudanças  estão relacionadas  a variações  determinadas pelo  ambiente  sociocultural,  a  geografia, a  história e a  situação em que  a  mensagem  está inserida.

QUESTÃO 115

De domingo

 — Outrossim?
— O quê?
— O que o quê?
— O que você disse.
— Outrossim?
—É.
— O que que tem?
—Nada. Só achei engraçado.
— Não vejo a graça.
— Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias.
— Ah, não é.Aliás, eu só uso domingo.
— Se bem que parece uma palavra de segunda-feira.
— Não. Palavra de segunda-feira é óbice.
— “Ônus.
— “Ônus” também. “Desiderato”. “Resquício”.
— “Resquício” é de domingo.
— Não, não. Segunda. No máximo terça.
— Mas “outrossim”, francamente…
— Qual o problema?
— Retira o “outrossim”.
— Não retiro. É uma ótima palavra. Aliás, é uma palavra difícil de usar. Não é qualquer um que usa “outrossim”.

(VERÍSSIMO. L.F. Comédias da vida privada. Porto  Alegre: LP&M, 1996).

No  texto, há uma  discussão  sobre o uso de  algumas  palavras da língua portuguesa. Esse uso  promove o (a)

(A) marcação temporal, evidenciada pela presença de palavras indicativas dos dias da semana.

(B) tom humorístico, ocasionado  pela ocorrência de  palavras empregadas em  contextos  formais.

(C) caracterização da identidade linguística dos  interlocutores, percebida pela recorrência de palavras regionais.

(D) distanciamento entre os  interlocutores, provocado pelo  emprego de palavras com  significados poucos  conhecidos.

(E) inadequação vocabular, demonstrada pela seleção de palavras desconhecidas por  parte de  um dos   interlocutores do  diálogo.

Gabarito: B

Comentário:

O  tom   humorístico do texto  utilizado  na questão 115 é  construído  a  partir do  conceito de uma das  variações  linguísticas: a  situacional. Ela  corresponde  às  diferentes  formas  que  o  falante escolhe para  se  comunicar, dependendo da  situação de   comunicação. É  a  situação  que determina, por  exemplo, o  vocabulário  a ser  empregado:  com quem estamos falando? Em que  evento  estamos?  Em que   lugar?

QUESTÃO 121

Texto I

Entrevistadora  — Eu  vou  conversar aqui  com  a  professora A.D. …  O  português então   não  é  uma  língua  difícil?

Professora — Olha se  você  parte do princípio… que a  língua  portuguesa  não  é  só  regras  gramaticais… não se  você   se apaixona pela  língua que  você…  já  domina… que  você  já  fala ao  chegar na  escola se teu  professor  cativa você a  ler obras da  literatura…  obra da/ dos  meios de comunicação… se você tem acesso a  revistas… é…  a  livros  didáticos… a… livros de  literatura  o mais  formal o  e/ o  difícil é  porque  a  escola  transforma como  eu  já  disse as  aulas de  língua  portuguesa  em análises  gramaticais.

Texto II

Professora — Não, se  você parte do princípio que  língua  portuguesa não  é  só  regras  gramaticais. Ao chegar à escola, o aluno   já domina e   fala a  língua. Se o  professor  motivá-lo a  ler  obras  literárias e se tem acesso a  revistas, a  livros didáticos, você se  apaixona  pela  língua. O  que  torna  difícil é  que a escola  transforma as  aulas de  língua  portuguesa em análises  gramaticais.

(MARCUSCHI,  L. A. Da  fala para  a escrita: atividades de  retextualização. São  Paulo: Cortez, 2001)

O  texto  I  é  a  transcrição de entrevista  concedida por   uma professora de  português a  um programa de  rádio. O texto II é  a adaptação dessa  entrevista para a modalidade escrita. Em comum, esses  textos

(A) apresentam ocorrências de  hesitações  e reformulações.

(B) são  modelos de  emprego de regras gramaticais.

(C) são exemplos de uso  não  planejado da língua.

(D) apresentam marcas da linguagem  literária.

(E) são  amostras do  português  culto  urbano.

Gabarito:  E

Comentário:

A questão 121 trata da  variação sociocultural, referente às  diferenças  linguísticas decorrentes das características  sociais  e culturais de   cada falante: idade, profissão, sexo, grau de  instrução grupo social,  nível econômico.  É importante  observar  a  expressão “português culto urbano”, utilizado  na  alternativa indicada como  correta  pelo gabarito  oficial do  INEP:  o conceito é   utilizado em  Sociolinguística para designar o   uso  linguístico  do indivíduo com grau de escolaridade superior completa, nascido e criado em  zona  urbana. Como já explicamos  em outro  texto, o conceito  da Linguística não está relacionado às  noções  de cultoinculto disseminadas  por  aí com  base no  senso comum!

QUESTÃO 126

Mandinga — Era a denominação que, no  período das  grandes  navegações, os  portugueses davam à  costa ocidental da  África. A  palavra se tornou sinônimo  de feitiçaria porque os  exploradores  lusitanos consideram bruxos  os africanos que ali  habitavam — é que eles davam  indicações sobre a  existência de ouro na região. Em idioma nativo, manding designava terra de  feiticeiros. A palavra acabou  virando sinônimo de feitiço, sortilégio.

(COTRIM, M. O  pulo do gato 3.  São  Paulo: Geração Editorial, 2009. Fragmento)

No  texto,  evidencia-se que a construção do significado da palavra  mandinga resulta de um (a)

(A) contexto sócio-histórico.

(B) diversidade técnica.

(C) descoberta geográfica.

(D) apropriação religiosa.

(E) contraste cultural.

Gabarito: A

Comentário:

A  questão 126 aborda a  variação histórica da  língua  portuguesa.   Toda  língua  natural  modifica-se com  o tempo:  mudam o   modo de  falar,  a  maneira de  estruturar  as frases, o  vocabulário e, muitas  vezes,  o  significado das palavras.

QUESTÃO 131

PINHÃO sai ao  mesmo tempo que BENONA entra.

BENONA: Eurico, Eudoro Vicente está lá fora e  quer  falar  com  você.

EURICÃO: Benona, minha  irmã, eu  sei  que ele  está   lá  fora, mas não  quero falar com ele.

BENONA:  Mas, Eurico, nós lhe devemos  certas  atenções.

EURICÃO: Passadas para  você, mas  o  prejuízo foi  meu.  Esperava que  Eudoro, com todo aquele  dinheiro, se tornasse meu  cunhado. Era  uma boca a  menos e  um patrimônio a mais. E o peste me traiu. Agora, parece que  ouviu  dizer que eu  tenho  um tesouro. E vem   louco atrás dele, sedento, atacado da  verdadeira  hidrofobia. Vive farejando  ouro, como  um cachorro  da  molest’a, como  um urubu, atrás do  sangue dos outros. Mas ele  está enganado. Santo  Antônio  há de  proteger minha pobreza e  minha  devoção.

(SUASSUNA, A.   O  santo e  a porca. Rio de  Janeiro: José Olimpyio, 2013)

Nesse texto teatral, o  emprego das  expressões “o peste” e  “cachorro da  molest’a” contribui para

(A) marcar  a classe social das personagens.

(B) caracterizar usos  linguísticos de  uma região.

(C) enfatizar a  relação familiar entre as  personagens.

(D) sinalizar a  influência do  gênero nas  escolhas vocabulares.

(E) demonstrar o  tom autoritário da fala de  uma das personagens.

Gabarito  oficial: B

Comentário:

Nessa questão, aborda-se  a  variação  geográfica. Ela corresponde às  diferenças  observadas na comparação entre o  uso linguístico em diversas  regiões  do  país ou quando  comparamos  os usos dos  diferentes países  de língua portuguesa.

Links para  estudo:

ENEM 2014 –  Questões comentadas: Variedades  linguísticas

ENEM 2015 –  Questões comentadas: Variedades linguísticas

Variedades   linguísticas  no  ENEM

Adequação e inadequação linguística

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Atualização em 11/11/2016: inclusão da questão 131.

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Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.