ENEM 2015 – Questões comentadas: variedades linguísticas

A série  ENEM – Questões  comentadas foi  criada no  blog  Conversa de Português em  2014 e consiste na  apresentação  das questões aplicadas no Exame Nacional do Ensino Médio e – a  partir da matriz de referência do  INEP –  a observação das competências  e habilidades correspondentes. A estrutura é a seguinte: apresentação da questão, competência e habilidade, gabarito oficial, comentário e link para estudos. Utilizo  o caderno amarelo como referência  para o  gabarito.

QUESTÃO  107

Assum preto

Tudo em  vorta é só beleza
Sol de abril e a mata em frô
Mas assum preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor

Tarvez  por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do assum preto
Pra ele assim, ai, cantá mió

Assum  preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil veiz a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá.

As marcas da variedade regional registradas pelos compositores de Assum preto resultam da aplicação de um conjunto de princípios ou regras gerais que alteram a pronúncia, a morfologia, a sintaxe ou o léxico. No texto, é resultado de uma mesma regra a

(A) pronúncia das palavras “vorta” e “veve”.

(B) pronúncia das palavras “tarvez” e “sorto”.

(C) flexão  verbal  encontrada em “furaro” e “cantá”

(D) redundância nas expressões “cego  dos óio” e “mata em frô”.

(E) pronúncia das  palavras “ignorança” e “avuá”.

Gabarito: B

Competência de área 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.

H25 – Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.

 

Comentário:

O texto Assum preto é  construído a partir de  uma  determinada variedade linguística e observamos expressões típicas  da  linguagem  oral. Em “tarvez” e “sorto”,  temos dois  casos de  rotacismo –  a troca de  L por  R em  encontros consonantais ou  em   final de  sílaba.  Bagno  (2007,  p. 145)  afirma que  “o  rotacismo em final de sílaba é  característico de algumas regiões onde  se  fala  o  chamado ‘dialeto caipira’ (interior de  São Paulo,  sul de  Minas Gerais etc.)”;  assim,  podemos  compreender a razão de a banca destacar, no  enunciado,  que  o  foco  da  questão  é  a variedade linguística regional.

QUESTÃO 124

Palavras jogadas fora

Quando criança, convivia no interior de São Paulo com o curioso verbo pinchar e ainda o ouço por lá esporadicamente. O  sentido  da palavra é  o  de  “jogar fora” (pincha  fora essa  porcaria) ou  “mandar  embora” (pincha esse fulano daqui). Teria  sido uma das muitas palavras que ouvi menos na capital do estado e, por conseguinte, deixei de usar. Quando indago às pessoas se conhecem esse verbo, comumente escuto respostas como “minha avó fala isso”.  Aparentemente,  para muitos  falantes, esse verbo é algo do passado, que deixará de existir tão logo essa geração antiga morrer.

As palavras são,  em  sua grande  maioria, resultados de  uma tradição: elas  já estavam  lá antes de  nascermos. “Tradição”, etimologicamente, é o ato de entregar, de passar adiante, de transmitir (sobretudo  valores culturais). O  rompimento da tradição de  uma palavra equivale  à sua extinção. A gramática normativa  muitas vezes colabora criando preconceitos, mas  o  fator  mais  forte que  motiva os falantes a extinguirem  uma palavra é  associar a palavra,  influenciados direta ou indiretamente pela  visão normativa, a um grupo  que julga  não ser o  seu. O pinchar,  associado  ao  ambiente  rural, onde há  pouca escolaridade e refinamento citadino, está fadado  à extinção?

É louvável que  nos  preocupemos com a extinção das  ararinhas-azuis ou dos  micos-leão-dourados, mas a extinção de  uma palavra não promove  nenhuma comoção, como  não  nos  comovemos com a extinção de  insetos, a não ser dos extremamente belos. Pelo contrário,  muitas  vezes a extinção das  palavras é incentivada.

VIARO, M. E. Língua Portuguesa, n. 77, mar. 2012 (adaptado).

A discussão empreendida sobre o (des)uso do verbo “pinchar” nos traz uma reflexão sobe a linguagem e seus usos, a partir da qual compreende-se que

(A) as palavras esquecidas pelos falantes devem ser descartadas dos dicionários, conforme sugere o título.

(B) o cuidado com espécies animais em extinção é mais urgente do que a preservação de palavras.

(C) o abandono de determinados vocábulos está associado a preconceitos socioculturais.

(D) as gerações têm a tradição de perpetuar o inventário de uma língua.

(E)  o mundo contemporâneo exige a inovação do vocabulário das línguas.

Gabarito  oficial: C

Competência de área 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.

H25 – Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.

H26 – Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.

Comentário:

A questão cobra  o  tópico variedades linguísticas  –  que  costuma  aparecer no  primeiro ano do Ensino Médio – a partir de  um dos aspectos do  preconceito linguístico.

Aprofunde seus  estudos:

Variedades linguísticas na sala de aula

Variedades linguísticas no ENEM

ENEM 2014 – Variação e variedades linguísticas

Simulado: variedades linguísticas

 

ENEM 2015: Confira nosso comentário sobre as questões 100 e 109.

Referências:

BAGNO, M.  Nada na  língua é por  acaso. São Paulo:  Parábola,  2007, p.  147.

 

Gostou? Divulgue!

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.