Contos, microcontos e haicais

Conto é  um gênero textual e apresenta os  mesmos  elementos de  outros  textos narrativos: enredo, espaço, tempo,  narrador e  personagens.  Não  há  um consenso sobre sua estrutura,  mas os  teóricos de literatura costumam  concordar sobre a sua principal diferença em relação a outras espécies narrativas: é um relato curto, desenvolvido em um ou dois  ambientes e apresenta poucos personagens. Com  a popularização das redes sociais digitais¹,  surgiu um novo gênero: o microconto.

O Twitter, rede social criada em 2006,  era quase um confessionário nada discreto: os usuários registravam o cotidiano e descreviam o estado de espírito. Escrever um texto de, no  máximo, 140 toques tornou-se  um desafio para quem queria responder à frase que aparecia na página inicial: “What’s happening?” (“O que está acontecendo?”). Consolidou-se, então, uma característica  da comunicação on-line: a concisão verbal.

Não demorou para  que  o microblog virasse “berço” para um novo tipo de literatura. Os microcontos tornaram-se bastante populares no Twitter, onde a impossibilidade de usar  mais do  que  140 caracteres consolidou o  desafio de contar uma  narrativa inteira em  poucas palavras.

Para seguir @quodores no Twitter,  clique na imagem.
Para seguir @quodores no Twitter, clique na imagem.²

Os  microcontos, por seu tamanho, lembram  o  haicai,  “poema  japonês caracterizado pela  brevidade, composto de três  versos, somando dezessete  sílabas, o  primeiro e o terceiro com com  cinco e o segundo com sete” (SOARES, 1993, p.33). O Haicai é inspirado nas estações do ano e, segundo a tradição japonesa, “estaria em acordo com fases da existência humana: ascensão – apogeu – decadência” (IDEM). Angélica Soares lembra-nos de que Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira foram representantes brasileiros  dessa expressão poética, cuja origem data do século 17.

haicai

Em sintonia com  a expressão literária  nascida na  internet, alguns professores  já  incorporaram o Twitter como ferramenta  de  ensino. Contrariando os  que veem com ressalvas o  uso de  tecnologias digitais  no ensino,  os  alunos aprendem a  escrever de  forma concisa e  aprendem  a estrutura de  textos narrativos. Veja abaixo algumas  sugestões de como  usar os microcontos  na sala de  aula:

Twitter chega à sala de  aula  ( Jornal O Estado de São Paulo)

Plano de  aula: produção de  microcontos  no Twitter  (Revista Nova Escola)

Como trabalhar contos e  microcontos  na  sala de aula (PNLD- Editora  Moderna)

Referências:

ALMEIDA, G. Infância. In: SOARES, A. Gêneros  literários. 3.ed. São Paulo: Ática, 1993. p.34

SOARES, A. O texto, a teoria. Gêneros  literários. 3.ed. São Paulo: Ática, 1993. p. 23-67

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¹ Usamos aqui a  expressão redes sociais digitais uma vez  que  o conceito de rede social já  existia nas Ciências Sociais antes do surgimento de ambientes virtuais como Orkut, Facebook e Twitter.

² Agradeço ao F. Amaral por autorizar a cópia do  texto publicado em seu blog e  em  sua  página no Twitter.

 

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.