Tarsila do Amaral. Operários.

Operário em construção – Análise

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O poema Operário em construção foi  escrito  por Vinícius de Moraes em 1956 e pode ser compreendido como uma metáfora para a construção da consciência de um trabalhador. De modo geral, a obra de Vinícius tem traços  da  segunda e da terceira geração do Modernismo brasileiro, período em que os textos estavam fortemente impregnados de questões sociais e políticas.

A  primeira estrofe apresenta o  operário  por meio de uma comparação e uma  metáfora que o identificam como trabalhador da construção civil sem  consciência de sua importância social

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Nos  versos abaixo, as palavras liberdade  e escravidão são associadas não como ideias opostas (o que, em uma leitura imediata, induziria o  leitor a pensar em uma antítese), mas sim como um paradoxo – figura de linguagem caracterizada pela associação de ideias contraditórias. Tal  análise  justifica-se, uma vez que  o produto de seu  trabalho deveria garantir liberdade ao  operário;  no  entanto,  isso  não se concretiza conforme o  texto  progride até o  seu  final.

Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

Em contraste com a alienação inicial,  o operário é tomado por uma súbita revelação e a tomada de consciência de que  tudo   à sua volta é  fruto de seu trabalho: “[...] casa, cidade, nação!/ Tudo o que existia/ era ele quem  o  fazia [...]“. A partir desse ponto, o  poema mostra  como  isso  passa a interferir em  seu  dia a dia.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
[...]
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
O  poema de Vinícius, como  outros  de sua geração, traz um importante questionamento a acerca das condições trabalhistas.  Os versos “O que  um operário dizia/ outro  operário  escutava” representam  as organizações sindicais. Por meio de metáforas,  a estrofe abaixo  texto promove uma reflexão sobre as desigualdades existentes entre as duas classes  sociais presentes no texto:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

Os  versos seguintes mostram a  influência do operário sobre os outros empregados, até o momento em  que é delatado pelos colegas (“Como era de se esperar/ As bocas da delação/ Começaram a dizer coisas/Aos ouvidos do patrão.”). Como resultado, o  patrão ordena que o  funcionário seja “convencido” a mudar  suas convicções.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
A epígrafe que abre o texto é extraída do evangelho de São Lucas (Lc 5, 5-8). Na passagem bíblica, Cristo é levado pelo Diabo ao alto de um monte e ali é desafiado a adorar seu  opositor. O texto de Vinícius de Moraes retoma essa ideia por meio de uma estrofe em que o  operário é desafiado a  abandonar sua ética em troca de favores de seu patrão, após esse perceber que  nem  mesmo a violência o convenceria:

[...]

De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

[...]

Nesse poema, a lógica das relações de trabalho é apresentada por meio de uma metonímia.  Vinícius não  nos  fala  de um patrão e um empregado específico, mas de duas classes sociais que vivem  em  lados opostos:  “Via tudo  que fazia /O lucro do seu patrão/ E em cada coisa que via / Misteriosamente havia/A marca de sua mão.” O  trabalhador reluta e, ao dizer “Não!”, deixa explícito  que  sua liberdade de pensamento  e sua ética são seus maiores bens.

Para ler o  poema na íntegra, clique  AQUI.

 

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura. Especialista em Teoria Literária pela UERJ. Mestranda em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal Fluminense. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

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1 Commentário

  1. Isabela 25 de novembro de 2013 at 9:46

    Esse poema é lindo!

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