Romance de 30 no ENEM

Como  já explicamos no  texto publicado em 21 de janeiro, romance de 30  foi um termo criado para designar o  conjunto de obras publicadas entre 1928 e 1945. No grupo dos romancistas de 30 (ou neo-regionalistas, como  também foram chamados), estavam  escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e  Raquel de Queiroz. Em 2007, o Exame Nacional do Ensino Médio continha duas questões sobre a prosa típica da segunda geração do Modernismo  brasileiro.

Texto I

Agora Fabiano conseguia arranjar as idéias. O que o segurava era a família. Vivia preso como um novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava o pé não. (…) Tinha aqueles cambões pendurados ao pescoço. Deveria continuar a arrastá-los? Sinha Vitória dormia mal na cama de varas. Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo.

Graciliano Ramos. Vidas Secas. São Paulo: Martins, 23. ed., 1969, p. 75.

Texto II

Para Graciliano, o roceiro pobre é um outro, enigmático, impermeável. Não há solução fácil para uma tentativa de incorporação dessa figura no campo da ficção. É lidando com o impasse, ao invés de fáceis soluções, que Graciliano vai criar Vidas Secas, elaborando uma linguagem, uma estrutura romanesca, uma constituição de narrador em que narrador e criaturas se tocam, mas não se identificam. Em grande medida, o debate acontece porque, para a intelectualidade brasileira naquele momento, o pobre, a despeito de aparecer idealizado em certos aspectos, ainda é visto como um ser humano de segunda categoria, simples demais, incapaz de ter pensamentos demasiadamente complexos.O que Vidas Secas faz é, com pretenso não envolvimento da voz que controla a narrativa, dar conta de uma riqueza humana de que essas pessoas seriam plenamente capazes.

Luís Bueno. Guimarães, Clarice e antes. In: Teresa. São Paulo: USP, n.° 2, 2001, p. 254.

Questão 3

A partir do trecho de Vidas Secas (texto I) e das informações do texto II, relativas às concepções artísticas do romance social de 1930, avalie as seguintes afirmativas.

  1. O pobre, antes tratado de forma exótica e folclórica pelo regionalismo pitoresco, transforma-se em protagonista privilegiado do romance social de 30.
  2.  A incorporação do pobre e de outros marginalizados indica a tendência da ficção brasileira da década de 30 de tentar superar a grande distância entre o intelectual e as camadas populares.
  3. Graciliano Ramos e os demais autores da década de 30 conseguiram, com suas obras, modificar a posição social do sertanejo na realidade nacional.

É correto apenas o que se afirma em:

(A) I. (B)  II. (C) III. (D) I e II. (E) II e III.

Gabarito e comentário sobre a questão:

Letra D. A prosa da segunda geração  modernista evidenciou as injustiças sociais da década de 1930 e a miséria decorrente da seca nordestina. Assim, personagens pobres que, antes eram  retratados como serviçais ou  vistos como elementos  sociais exóticos, são elevados à categoria de protagonistas.  Em Vidas secas,  temos um retrato do sertanejo depois da grande seca que assolou  o  Nordeste em 1915 – tema também  abordado por Raquel de Queiroz em  sua obra O quinze.

Questão 4

No texto II, verifica-se que o autor utiliza

(A) linguagem predominantemente formal, para problematizar, na composição de Vidas Secas, a relação entre o escritor e o personagem popular.

(B) linguagem inovadora, visto que, sem abandonar a linguagem formal, dirige-se diretamente ao leitor.

(C) linguagem coloquial, para narrar coerentemente uma história que apresenta o roceiro pobre de forma pitoresca.

(D) linguagem formal com recursos retóricos próprios do texto literário em prosa, para analisar determinado momento da literatura brasileira.

(E) linguagem regionalista, para transmitir informações sobre literatura, valendo-se de coloquialismo, para facilitar o  entendimento do texto.

 

Gabarito e comentário sobre a questão:

Letra A.  O  texto, fragmento de um artigo  em que se analisa a obra Vidas secas, é  escrito  em  linguagem  formal, obedecendo  ao registro “culto” da língua portuguesa. A questão estabelece  um contraponto  entre a inovação  linguística do  texto literário  e o  texto acadêmico.

Leia mais no blog:

 Romance de 30

 Segunda geração modernista

Favelário nacional -análise

 

 

 

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.

Comentários

  1. Professora, eu tentei fazer a terceira questão, e não entendi muito bem o gabarito.
    Para mim, a primeira estaria incorreta, um vez que o pobre antigamente era desprezado pela sociedade, e altamente excluído da literatura. A II eu concordo que esteja correta, e a III como foi marcada pela senhora como incorreta, volto a discordar já que a segunda geração contribui para modificar a situação social do sertanejo.
    Desde já, agradecido!

    1. Davi, o gabarito não é meu; ele é oficial do Exame. Repare no último período da questão: “Graciliano Ramos e os demais autores da geração de 30 conseguiram […] modificar a posição do sertanejo na realidade nacional”. Note que o nordestino foi valorizado literariamente, mas isso em nada mudou sua condição real. E é exatamente essa pegadinha que está na questão.