Contos de Grimm – 200 anos

A literatura infantil nasceu com a publicação Contos da mãe gansa, de Charles Perrault, em 1697, durante o reinado de Luís XIV, o Rei  Sol. Perrault reunira oito  histórias, recolhidas da tradição oral francesa, e atribuíra a autoria de seus textos ao filho adolescente Pierre Perrault. Cerca de cem anos  depois,  na Alemanha, Wilhelm e Jakob começariam  um trabalho  que promoveria a expansão da literatura  infantil pela  Europa e pelas Américas. Hoje, 20 de dezembro, comemora-se o  bicentenário da publicação dos contos dos  famosos Irmãos Grimm;  poucos, no entanto,  sabem que eles  eram linguistas e usaram as narrativas vindas da tradição oral  para pesquisar a história da língua alemã.

Ao contrário do que se pensa,  os  Irmãos não eram escritores de  histórias infantis. “Integrantes do Círculo Intelectual de Heidelberg, ambos eram filólogos, folcloristas e estudiosos da mitologia alemã” (COELHO,2008, p. 29) e suas pesquisas  objetivam identificar determinados aspectos linguísticos nas lendas e sagas transmitidas pela tradição oral. Enquanto  ouviam  os  relatos que lhes serviriam de corpus  para seus trabalhos de linguística histórica,  os Grimm descobriram   um enorme acervo de narrativas maravilhosas  que, após criteriosa seleção, passaram a constituir o  que  hoje  chamamos de Literatura Clássica Infantil: A Bela Adormecida, Branca de Neve e os sete anões, Chapeuzinho  Vermelho, Os músicos de Bremem, João e Maria e vários outros.  Os textos foram  publicados individualmente entre 1812 e 1822 e reunidos anos mais tarde no  volume Contos de fadas para crianças e adultos.

A versão original dos contos foi  alterada pelos Irmãos, após serem pressionados por grupos  que consideravam os  contos demasiadamente violentos  para serem distribuídos  entre as crianças. O que  conhecemos  hoje corresponde à segunda edição do volume de contos.   Vejamos abaixo a fábula Músicos de Bremem, para a  qual Chico Buarque de Holanda escreveu a versão brasileira intitulada Os saltimbancos, em  1977. A fábula representa a  luta de  classes entre o  povo e os senhores.

Músicos de Bremem

Irmãos Grimm

Um homem tinha um burro que, há muito tempo, carregava sacos de milho para o moinho. O burro, porém, já estava ficando velho e não podia mais trabalhar. Por isso, o dono tencionava vendê-lo. O pobre animal, sabendo disso, ficou muito preocupado, pois não podia imaginar como seria seu novo dono… e então, para evitar qualquer surpresa desagradável, pôs-se a caminho da cidade de Bremen.

“Certamente, poderei ser músico na cidade”, pensava ele.
Depois de andar um pouco, encontrou um cão deitado na estrada, arfando de cansaço.
– Por que estás assim tão fatigado? perguntou o burro.
– Amigo, já estou ficando velho e, a cada dia, vou ficando mais fraco. Não posso mais caçar; por isso meu dono queria me entregar à carrocinha. Então, fugi, mas não sei como ganhar a vida.
– Pois bem, lhe disse o burro. Minha história é bem semelhante à sua. Vou tentar a vida como músico em Bremen. Venha comigo. Eu tocarei flauta e você poderá tocar tambor.

O cão aceitou o convite e seguiu com o burro. Não tinham andado muito, quando encontraram um gato, muito triste, sentado no meio do caminho.

– Que tristeza é essa, companheiro? lhe perguntaram os dois
– Como posso estar alegre, se minha vida está em perigo? respondeu o gato. Estou ficando velho e prefiro estar sentado junto ao fogo, em vez de caçar ratos. Por esse motivo, minha dona quer me afogar.
– Ora, venha conosco a Bremen, propuseram os outros. Seremos músicos e ganharemos muito dinheiro.

O gato, depois de pensar um pouco, aderiu e acompanhou-os. Foram andando até que encontraram um galo, cantando tristemente, trepado numa cerca.
– Que foi que lhe aconteceu, amigo? perguntaram os três.
– Imaginem, respondeu o galo, que amanhã a dona da casa vai ter visitas para o jantar. Então, sem dó nem piedade, ordenou ao cozinheiro que me matasse para fazer uma canja.
Os outros, então, lhe propuseram:
– Nós vamos a Bremen, onde nos tornaremos músicos. Você tem boa voz. Que tal se nos reunissemos para formar um conjunto?
O galo gostou da idéia e juntando-se aos outros seguiram caminho.

A cidade de Bremen ficava muito distante e eles tiveram que parar numa floresta para passar a noite. O burro e o cão deitaram-se em baixo de uma árvore grande. O gato e o galo alojaram-se nos galhos da árvore.
O galo, que se tinha colocado bem no alto, olhando ao redor, avistou uma luzinha ao longe, sinal de que deveria haver alguma casa por ali. Disse isso aos companheiros e todos acharam melhor andar até lá, pois o abrigo ali não estava muito confortável.

Começaram a andar e, cada vez mais, a luz se aproximava. Afinal, chegaram à casa. O burro, como era o maior, foi até a janela e espiou por uma fresta. À volta de uma mesa, viu quatro ladrões que comiam e bebiam. Transmitiu aos amigos o que tinha visto e ficaram todos imaginando um plano para afastar dali os homens. Por fim, resolveram aproximar-se da janela. O burro colocou-se de maneira a alcançar a borda da janela com uma das patas. O cão subiu nas costas do burro. O gato trepou nas costas do cão e o galo voou até ficar em cima do gato.

Depois, a um sinal combinado, começaram a fazer sua música juntos: o burro zurrava, o cão latia, o gato miava e o galo cacarejava. A seguir, quebrando os vidros da janela, entraram pela casa a dentro, fazendo uma barulhada medonha.

Os ladrões, pensando que algum fantasma havia surgido ali, saíram correndo para a floresta. Os quatro animais sentaram-se à mesa, serviram-se de tudo e procuraram um lugar para dormir. O burro deitou-se num monte de palha, no quintal; o cão, junto da porta, como a vigiar a casa; o gato, junto ao fogão, e o galo encarapitou-se numa viga do telhado. Como estavam muito cansados, logo adormeceram.

Um pouco além da meia noite, os ladrões, verificando que a luz não brilhava mais dentro da casa, resolveram voltar. O chefe do bando disse aos demais:
– Não devemos ter medo!
E mandou que um entrasse primeiro para examinar a casa. Chegando à casa, o homem dirigiu-se à cozinha para acender um vela. Tomando os olhos do gato, que brilhavam no escuro, por brasas, tentou neles acender um fósforo. O gato, entretanto, não gostou da brincadeira e avançou para ele, cuspindo-o e arranhando-o. Ele tomou um grande susto e correu para a porta dos fundos, mas o cão, que lá estava deitado, mordeu-lhe a perna. O ladrão saiu correndo para o quintal, mas, ao passar pelo burro, levou um coice. O galo, que acordara com o barulho, cantou bem alto: – Có, có, ró, có!!!!

Sempre a correr, o ladrão foi se reunir aos outros, a quem contou:
– Lá dentro há uma horrível bruxa que me arranhou com suas unhas afiadas e me cuspiu no rosto. Perto da porta, há um homem mau que me passou um canivete na perna. No quintal, há um monstro escuro, que me bateu com um pedaço de pau. Além disso tudo, no telhado está sentado um juiz, que gritou bem alto:
“- Traga aqui o patife!!!”… Acho que não devemos voltar lá… é muito perigoso!!

Depois disso, nunca mais os ladrões voltaram à casa, e os quatro músicos de Bremen sentiam-se muito bem lá, onde faziam suas músicas e viviam despreocupados. De vez em quando alguém das redondezas os chamavam e lá iam eles, felizes e contentes, tocar a sua música….

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 Literatura infantil e as fábulas

 

Fontes de pesquisa:

COELHO, Nelly Novaes.  Contos de fadas e a memória popular. Contos de fadas: símbolos,  mitos e arquétipos.  São  Paulo: Paulinas, 2008, p. 25-32

VIARO, Mário Eduardo. A linguística de Grimm. Revista Língua Portuguesa.  São  Paulo: Segmento, set. 2009.

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.