Negrinha no banco dos réus

Escrevi, em  29 de  outubro de 2010,  o texto  Monteiro  Lobato e a censura, motivada pela polêmica acerca do  livro  Caçadas de Pedrinho. O título, publicado em  1933, corria o  risco de  ser proibido nas escolas sob alegação de  conter trechos racistas. Ontem, 25 de setembro de  2012,  o Instituto de  Advocacia Racial e Ambiental  –  IARA – ingressou na Controladoria Geral  da União com uma representação para investigar a compra do  livro de contos Negrinha. A obra  seria adotada  no  Programa Nacional Biblioteca na Escola e o IARA considera que , por  seu conteúdo  supostamente racista,  não deveria ser comprada com dinheiro público.  Ao contrário de Caçadas de Pedrinho,  este livro não faz parte do conjunto de obras infantis de Monteiro Lobato – a primeira obra do  ciclo só seria escrita um ano depois.

Eu sempre digo  aos alunos que  um texto precisa  ser lido a partir do  contexto em que  foi  escrito. Assim, parece-me meio patético  acusar de racismo, em  2012, as obras de  Monteiro Lobato ou  de qualquer outro  autor que  tenha  escrito no  início do século  XX.  Acho  mais lógico  ensinar a ler  o  texto  e refletir sobre os fatores  históricos e sociais que contribuíram  para a sua produção.

 Capa da 4ª edição, publicada pela Ed. Brasiliense em 1951.

Capa da 4ª edição, publicada pela Ed. Brasiliense em 1951.

O  conto  Negrinha foi publicado pela primeira  vez em  1920 como  parte de  uma coletânea homônima de contos.  Passados 32 anos da Abolição dos  Escravos,  o Brasil  ainda refletia os  efeitos da escravidão e a transição do  trabalho escravo para o  trabalho assalariado. O  regime escravocrata acabara, mas  a  visão  preconceituosa sobre o  negro permanecera.  A economia brasileira, que  por séculos  foi mantida por   mão de obra escrava,  ainda dependia, no  início do século,  dos  mesmos negros e seus descendentes, que  passavam a ter direito a salário.  O  conto  de  Monteiro  Lobato, no  entanto,  mostrava uma contradição:  o  negro livre continuava  sendo  tratado  como escravo.

Lobato construiu sua personagem por meio de ironias que demonstravam como o negro recém-liberto era tratado: a protagonista negra  não  tem  nome; a nomeação  é  destinada apenas à ex-senhora de escravos – Dona Inácia. Negrinha é  caracterizada pelos adjetivos  que eram  usados pelos senhores:

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos.  Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos  ruços e olhos  assustados.

[…] Que ideia faria de si  essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo,  coruja,  barata descascada, bruxa, pata choca, pinto  gorado, mosca morta, sujeira, bisca,  trapo, cachorrinha, coisa ruim,  lixo  – não  tinha conta o  número de  apelidos  que a mimoseavam.

A senhora é  descrita de  modo irônico e bastante paradoxal:

Ótima, a  dona Inácia. Mas  não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os  nervos  em carne viva. Viúva sem filhos,  não a calejara o  choro da carne de sua carne  e por isso não  suportava o  choro  da carne alheia.

[…]

A excelente dona  Inácia era mestra na arte de judiar crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos –  e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar  o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo –  essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho  porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”…

o 13 de maio tirou-lhe das mãos o azzorague, mas   não lhe tirou da alma a gana.

A proposta do IARA é que as futuras edições contenham uma contextualização obrigatória. O  Instituto reivindica um encarte obrigatório e a capacitação dos professores antes da adoção das obras de Lobato – diferentemente da proposta do MEC, que sinalizou  com  a possibilidade de apenas recomendar a contextualização.

Como  professora da educação básica e especialista em  Teoria Literária, eu defendo a ideia de que é preciso ensinar a ler!  A leitura defendida por  mim não é aquela ingênua em  que apenas a superfície do  texto é lida como um amontoado de palavras. Sou  como a Emília do Lobato: crítica! Eu quero  na minha sala um aluno  capaz de ler e refletir sobre o  produto de sua leitura!

Pais e professores são  mediadores de leitura, ainda que o  texto não seja originalmente dedicado à infância e à adolescência.  Angela da Rocha Rolla, em  seu  artigo  “Jogo do  texto: quem são  os  leitores?”, diz que

a  julgar pelo que nos ensina Iser, a orientação ao leitor  não  garante, em princípio, o seu  efeito, que depende integralmente de sua participação na obra. Ao contrário, pode impedi-lo de frui-la a seu modo, com a  antecipação de visões de mundo que não  são as suas. Os mediadores da leitura –  críticos,  pais e professores – muitas vezes impedem  que essa interação se estabeleça.  (ROLLA, 2004, p. 120)

O  trabalho do  professor de Literatura é, como  já aparecia nos  textos  de Jauss e Iser sobre a estética da recepção,  “diferençar dois modos de recepção.  Ou seja, de um lado aclarar o processo atual em que se concretizam o efeito e o  significado do  texto para o  leitor contemporâneo e, de outro, reconstruir o  processo histórico  pelo  qual  o texto é sempre  recebido e interpretado  diferentemente, por  leitores de tempos diversos”.  (JAUSS, 2002, p.70)

O site da Revista Nova Escola  contém  uma sequência didática como sugestão  para usar o conto  em  sala  de aula. A atividade interdisciplinar sugere a participação  dos professores de Língua Portuguesa,  História e Artes. Para ver a atividade,  clique AQUI.

Leia AQUI o  texto integral do  conto  Negrinha.

Referências:

JAUSS, H.R. A estética da recepção: colocações  gerais. In: LIMA, L.C. (org.) A literatura e o  leitor  – textos de estética da recepção. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 67-84

ROLLA, A.R. Jogo do  texto: quem  são  os leitores? In: CECCANTINI, J.L. Leitura e literatura infanto-juvenil: memória de Gramado. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2004.  p. 38-44

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.

Comentários

  1. quero saber se o conto negrinha de monteiro lobato é da literatura infantil e como e se possui ilustrações no conto falar um pouco como é!

  2. Nivia, como você leu no texto “ao contrário de Caçadas de Pedrinho, este livro não faz parte do conjunto de obras infantis de Monteiro Lobato – a primeira obra do ciclo só seria escrita um ano depois.”

    Obrigada pela visita!