Dia do Livro Infantil, aniversário do Lobato

Hoje, comemora-se o  aniversário de Monteiro Lobato e celebramos  também o Dia Nacional do Livro Infantil estabelecido  por  meio da Lei Nº 10.402, de  8 de janeiro de  2002.  Embora tenha escrito sobre diversos assuntos,  o  escritor é  sempre lembrado  pelos estudiosos com  um marco  na literatura infantil  brasileira. Se Lobato é  considerado  um “divisor de águas” na literatura  infantil,  o  que havia  antes dele?

 A literatura  infantil  teve início com a  publicação, em 1697, dos Contos  da mamãe Gansa, de  Charles Perrault. A literatura  infantil  brasileira só surgiu muito  tempo depois,  já  na transição do  século XIX para o  século XX, embora haja registros de uma ou outra obra voltada  a este público  ainda no  século XIX.  Com  a vinda da Família  Real  para o  Brasil, implantou-se, em 1808,  a Imprensa Régia e foi lançada a primeira  obra dedicada à infância: As aventuras pasmosas do Barão de Munkausen. Em 1818, foi  publicada a obra  Leitura para meninos, contendo uma coleção de histórias morais relativas aos defeitos ordinários às idades tenras, e um diálogo sobre geografia, cronologia,  história de Portugal e história natural, de José Saturnino  da Costa Pereira. Nova publicação destinada ao  público infantil só  surgiu em  1848: uma  nova edição daquela  publicada em  1808 e com título  reformulado – As aventuras do  Barão de  Münchhausen.  As outras publicações adaptações e  traduções   importadas de Portugal (Robinson Crusoé, Viagens de Gulliver, D.Quixote de La Mancha, Histórias da baratinha).   A produção literária para a infância era irregular, continha  títulos  que originalmente não foram escritos para o  público infantil; não podia, portanto, ser ainda caracterizada como  literatura infantil  brasileira.

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O início do  século  XX  foi  o  momento de  uma crescente industrialização, o que tornou  propício  o fortalecimento do  mercado editoral  brasileiro –  já  havia as revistas femininas e as publicações dos livros que seriam  usados nas escolas. Em 1905,  foi  lançada a  Tico Tico, primeira revista destinada ao  público  infantil. A publicação  foi a  primeira a publicar regularmente histórias em  quadrinhos. A última edição  foi  publicada em 1962.

A literatura  brasileira refletia a necessidade da construção de uma identidade nacional e estudiosos como Silvio  Romero e José Veríssimo expressavam seu desejo de  ver um “material  escolar  não só  feito por  brasileiros […], mas brasileiro pelos assuntos, pelo  espírito, pelos  poetas reproduzidos e pelo sentimento nacional” (LAJOLO, 2004, p. 28).  O  projeto de consolidação da identidade nacional estava ligado à  educação e, como  resultado, intelectuais, professores,  jornalistas empenharam-se para  a produção de  livros  infantis.

 Antes de Monteiro  Lobato escrever para o  público infantil, os  escritores  Figueiredo  Pimentel e Carlos Jansen já eram  conhecidos por  suas obras, que consistiam em adaptações e traduções de obras infantis estrangeiras. Em 1886,  foi  publicado Contos  infantis, de Júlia Lopes de Almeida e Adelina Lopes  Vieira, os  poetas parnasianos Olavo   Bilac e Coelho  Neto publicaram  os Contos pátrios, em 1904; Júlia  Lopes lançou Histórias de nossa terra, em  1907.  A primeira  década do  século XX viu  também  o  surgimento de diversas  antologias folclóricas e  provérbios  populares.

Monteiro  Lobato  publicou  sua primeira  obra infantil em  1921 – Narizinho arrebitado (segundo  livro de  leitura para as escolas primárias). O  escritor acreditava  haver a necessidade de  publicar para as crianças com  uma linguagem que lhes fosse acessível e  interessante.  O sucesso de  Narizinho  foi tanto que  a obra  foi  adotada  nas escolas públicas paulistas. Vendo  nesse  público  um grande  potencial, Lobato  passa a investir na área  e  funda a Editora  Monteiro  Lobato & Cia, a Companhia Editora Nacional e a Editora Brasiliense, por  meio  das quais edita seus próprios livros.  Em 1931,  o  escrito  revisa o  texto de Narizinho arrebitado e passa a editá-lo  com  o  título  Reinações de Narizinho,  como  o  livro  é  conhecido ainda hoje.

Amigo de  Anísio  Teixeira,  Lobato era adepto  das propostas do  movimento  conhecido  como  Escola Nova, liderado  pelo  educador entre 1920 e 1930.  Os amigos  trocaram  correspondências nas quais  discutiam  sobre  a educação brasileira, tendo  como  princípio a autonomia da criança, segundo  o  qual a   educação seria um “processo  experiencial de construção do conhecimento” (CASTRO, 2008,  p.34). As propostas de Lobato  para a educação – presentes no  conjunto de sua  obra infantil –  eram  compatíveis com  os  ideais de Jean-Jacques Rousseau, Jean  Piaget e Anísio Teixeira.  Os personagens infantis do  Sítio  ouviam  as histórias de Dona Benta  e partiam  em  busca de novas experiências a partir dos textos  ouvidos.

Lobato expôs, em suas obras  infantis,   o  seu  pensamento acerca da produção do  petróleo,  exploração  do  ferro, analfabetismo, saneamento  básico e a influência estrangeira sobre a economia brasileira. A  ideia lobatiana de nacionalismo estava diretamente ligada à educação e o  escritor acreditava ser a literatura infantil o  seu  melhor instrumento.

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Referências:

CASTRO, Angelina.  Convite aos educadores:  um passeio  pelas páginas do Picapau Amarelo.  Belo Horizonte: UFMG/ A tela e o texto, 2008.

LAJOLO, R; ZILBERMAN,  R. Literatura infantil brasileira:  história e histórias.  6.ed. São  Paulo:  Ática, 2004.

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Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.