Gregório de Matos e o Barroco

Os três primeiros séculos da literatura no  Brasil mostram  que houve simultaneidade dos estilos Barroco, Neoclacissismo e Arcadismo. Podemos  fazer tal afirmação, uma vez que as características, muitas  vezes,  somavam-se  e nem  sempre os períodos seguiam  cronologia exata  – é sempre bom  lembrar que as datas apresentadas nos manuais de literatura servem-nos apenas como  uma pista para entender o momento  histórico  em que as correntes artísticas aconteciam.  O  Barroco literário brasileiro nasceu com os  primeiros textos jesuíticos e se manteve até o século XVIII  e teve como  principais representantes Padre Antônio  Vieira, Bento Teixeira e Gregório de Matos Guerra.

 A literatura  produzida naqueles movimentos estéticos resultava de um conceito muito  difundido na época  situada entre o  Renascimento e o Romantismo: a regra da criação  literária era a imitação. Ao  poeta daquele  período não  era suficiente a inspiração; o êxito e a perfeição  poéticas somente poderiam ser alcançados  a partir da imitação  dos clássicos.  O professor Afrânio  Coutinho, em  seu  livro Introdução à literatura no Brasil, diz que

Essa norma decorria do  próprio sistema educacional  vigente, baseado  nas famosas Literae Humaniores. Nele exercia papel fundamental a retórica, através da obra dos  retóricos clássicos – Aristóteles, Isócrates, Cícero, Horário, Quintiliano.  A tradição  retórica dominou a  época como  uma sólida corrente de interpretação  e crítica, tanto quanto  de formação  intelectual, cujo  objetivo era ensinar a falar e escrever com persuasão.  […] Naquele tempo era motivo  de superioridade e  não de inferioridade artística […] um escritor mostrar que imitava  um modelo da Antiguidade(p.85-86)

 

O Barroco tentava a conciliação do ideal  medieval, espiritual com os novos valores renascentistas: o humanismo, o  gosto pela coisas terrenas, as satisfações mundanas e carnais. Movimento  que surgiu   logo após a Contra-Reforma, o  Barroco  era um  novo  estilo de vida que refletia as contradições da época e  as expressava nas artes plásticas, na filosofia,  na religião e na literatura.

Gregório de Matos Matos (1636 – 1696) era doutor in utroque jure pela Universidade de  Coimbra. Sua produção  literária  continha  poesias líricas, religiosas e satíricas. Havia em  sua poesia denúncias contra as autoridades da colônia, o desprezo  pelos mestiços, a cobiça pelas mulatas, o fervor religioso.

À mesma dona Ângela

Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda

 

À mesma dona Ângela é  uma poesia lírica. Aqui  podemos  perceber o caráter imitativo  da obra de Gregório de Matos que, assim  como  poetas como Shakespeare, comparava a beleza da musa  a elementos da natureza.  A musa é, ao mesmo  tempo, comparada a um anjo e à flor angélica.   O paradoxo, figura de linguagem bastante explorada no  Barroco  literário também  é encontrada no  poema: “Sois anjo  que me tenta e não  me guarda”. Angélica é retratada metaforicamente como  um ser tão  puro  que pode ser comparado  a um anjo  ou  a uma flor, porém sua beleza é tão  perturbadora para o  eu lírico que estar próximo  a ela é  uma tentação.

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado
de vossa alta piedade me despido.
Antes quanto mais tenho delinquido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
a abrandar-vos sobeja um só gemido;
que a mesma culpa, que vos há ofendido,
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
glória tal e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na sacra história,

eu sou, Senhor, ovelha desgarrada:
cobrai-a, e não queirais, pastor divino,
perder na vossa ovelha a vossa glória.

 

O  Barroco foi influenciado pela ideologia da Contra-Reforma e pelo Concílio de Trento.  A estética barroca é composta pelo  dualismo razão/fé.  A Contra-Reforma “opôs a concepção de ‘homem aberto’, voltado para o céu assim,  à ideia renascentista do ‘homem fechado’, limitado à terra” (COUTINHO, 1995).  O poema  Pequei, Senhor reflete o  homem  barroco saudoso da religiosidade medieval.

 

 Epílogos

Que vai pela clerezia?………………Simonia
E pelos membros da Igreja?……….Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?…..Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos frades há manqueiras?………Freiras
Em que ocupam os serões?…………Sermões
Não se ocupam em disputas?………Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou?………………Baixou
E o dinheiro se extinguiu?………….Subiu
Logo já convalesceu?…………………Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode?……………….Não pode
Pois não tem todo o poder?………..Não quer
É que o governo a convence?……..Não vence.

Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

 

Gregório  ficou  conhecido pelo  apelido Boca do Inferno pelo  teor de suas poesias satíricas e pelo  vocabulário deselegante que empregava em  suas obras.  No poema Epílogos, o  autor utiliza a estética medieval com estrofes em redondilha maior (sete sílabas métricas). Outra característica barroca presente no  texto é o  processo de disseminação e recolha: as palavras são espalhadas por versos diferentes para depois serem  reunidas em  um mesmo  verso, como podemos  ver em  “Simonia, Inveja, Unha” e nas estrofes seguintes.

 

 

Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Professora voluntária de Língua Portuguesa e Redação no Pré-vestibular Comunitário Padre José Maurício Nunes Garcia.

Comentários

  1. booom, vcs poderiam mim falar a importância do texto epílogos para a literatura brasileira ? , too esperandooo .

    beeeeeeeeeijos e requijãooo