Monteiro Lobato e a censura

Monteiro Lobato está na ementa de  duas de minhas  disciplinas:  Oficina Literária e Literatura Infantil e Juvenil; a primeira é a parte do Curso Superior de Produção Cultural e a segunda está na grade da pós-graduação na mesma área. Quando chega o  momento de falar de Lobato nos cursos, descubro que a memória dos  alunos sobre o autor foi criada a partir de programas de  televisão  – poucos leram Lobato  na escola. O mesmo acontece com  os  alunos  do Ensino Médio; eu  o citei em  uma aula sobre outro assunto e os meninos pediram  que  continuasse a falar dele. Hoje, fui surpreendida pela notícia de que o  Conselho Nacional de Educação  quer proibir a  distribuição de  uma das obras de Monteiro Lobato a alunos  do Ensino  Médio, sob alegação de racismo.

 

A obra que está na mira do CNE é Caçadas  de Pedrinho, título lançado  por  Lobato  em 1933. A narrativa conta a aventura do menino que parte a fim de capturar uma   onça pintada.  A “abordagem racista” estaria no  tratamento dado à cozinheira Tia Nastácia, chamada de “negra” em  alguns trechos do livro. Outro  trecho condenado pelo Conselho  é “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.
Não  é  a primeira vez que uma obra de Lobato é perseguida. Em 1940, o livro Peter Pan foi recolhido, no estado de São Paulo, a pedido do Tribunal de Segurança Nacional. Todos os exemplares encontrados foram  destruídos, sob alegação de que incitava as crianças a  um pensamento  equivocado  sobre o governo do  país e dava-lhes  um sentimento de  inferioridade por comparar crianças brasileiras e inglesas. Outras obras do autor passaram por campanhas difamatórias: O poço do Visconde (o autor questionava a recusa do governo  sobre existência e exploração de petróleo);  Geografia de Dona Benta (denúncia da má administração federal); História do mundo para crianças (o autor questionou o “descobrimento” do Brasil,  narrou  o episódio  em que Vasco da Gama teria ordenado a mutilação de 1600 marinheiros árabes e afirmou ter Santos  Dumont se suicidado por desgosto ao ver seus aviões usados como máquina de  guerra); Hans Staden foi condenado por conter cenas antropofágicas que poderiam assustar as crianças e Doze Trabalhos de Hércules foi criticado por, aparentemente,  desrespeitar a cultura grega.  Naquele  momento da história brasileira, a obra lobatiana poderia ser julgada como comunista e ordenou-se  que os livros  fossem retirados das bibliotecas escolares.
Monteiro Lobato tinha especial preocupação  com o   desenvolvimento da educação brasileira.  O autor acreditava em um processo de  ensino-aprendizagem em que o  aluno fosse considerado agente de seu conhecimento, o que  justifica o jeito “malcriado”  de Emília, as observações críticas de Pedrinho, os saraus de Dona Benta e a cultura popular narrada por Nastácia. O pensamento de Lobato estava influenciado pela “Escola Nova” de Anísio Teixeira, que introduzira, no  Brasil,  as ideias educacionais do  pedagogo americano  John Dewey. Teixeira e Lobato defendiam a ideia de que era preciso discutir a democracia nas escolas, o ensino precisava ser público e gratuito, e o aprendizado  só seria  bom se feito a partir de  experiências críticas.
O Conselho Nacional de Educação parece promover  o retrocesso, o caminho inverso da luta educacional travada por Lobato e Teixeira. Ainda que  suas obras contenham trechos que não  traduzam os valores éticos atuais,  é preciso levá-las às crianças e a partir delas  construir um novo  valor moral. É preciso ensinar a ler Lobato: por que  o autor usou expressões  que, hoje, são consideradas preconceituosas? Como  o  negro era tratado no início do século  XX? Qual era  seu papel social? Como  o  autor usa tais questões  em sua obra?  Proibir  a obra de Lobato nas escolas é trazer de volta um período vergonhoso de  nossa história.
Para ouvir a entrevista no Youtube, clique AQUI.

Leia o  texto publicado na Folha:

CNE quer vetar livro de Monteiro Lobato

Leia  em  meu outro  blog:

Lobato e  o poço

Monteiro Lobato, Hillary e McCain

Obama e Monteiro Lobato

Atualização em  30 de outubro:

Sugiro a leitura dos livros Convite aos educadores – um passeio pelas páginas do Picapau Amarelo, de Angelina M.F. Castro (Ed. Tela e Texto), e  Monteiro Lobato – intelectual, empresário, editor , de Alice Koshiyama (EdUSP), que serviram de fonte de pesquisa para o meu texto.

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Andréa Motta

Professora de Língua Portuguesa e Literatura. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

Comentários

  1. …. o nosso país tem desses absurdos, tenho uma leve desconfiança que por causa de coisas do desse tipo, elegemos em nosso país figuras dantescas, como TIRIRICA e afins e num ponto maior colocaremos na presidência da república alguém por conta das "bolsas" seja "ELE ou ELA". Quero ir embora desse lugar, onde não temos espaços decentes para educação e cultura, onde a violência anda pra todo lado, onde não se respeita nem crianças, nem idosos, onde o chefe da nação diz que leitura é algo muito chato e onde a educação é uma coisa qualquer.

  2. Misericórdia, Andrea, isso que vc está contando é muito grave. Se o Conselho de Educação não tem uma visão ampla da história estamos mesmo com problemas.

    bjs

  3. Andrea,
    essa que se diz professora que denuncia a obra de Lobato, não conhece realmente a luta de Lobato e sua grande contribuição para a formação da literatura infantil no nosso país! O que hoje é considerado politicamente correto, naquele momento histórico, início do século passado, não era. E acredito, não era essa a intenção do autor, a de ridicularizar a figura que todos nós aprendemos a amar, graças a ele, a tia Nastácia!!! Lamentável, lamentável… Espero que o nosso ministro tenha o bom senso de não permitir esse absurdo. Abraços.
    Claudia